O prolongamento indefinido da quarentena pegou os brasileiros de surpresa. Com a necessidade de isolamento social, a população que buscava infraestrutura e mobilidade urbana nas regiões centrais das cidades passaram a questionar suas escolhas. A necessidade do home office em família trouxe ainda mais uma questão: além de não precisarem mais do transporte como antes, as crianças em casa em tempo integral e a organização para o trabalho pedem ambientes mais preparados.

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E embora a retração da economia tenha afetado o País como um todo, alguns setores, como o imobiliário, apresentam recuperação surpreende. Depois das quedas em abril e maio, o setor vê com otimismo números preliminares de junho, indicando que as vendas chegaram a 85% do esperado para o mês em São Paulo, de acordo com dados do Sindicato da Habitação (Secovi-SP). Mas o mercado de leilões imobiliários, por exemplo, já vinha percebendo a oportunidade.

“Quando começou a pandemia, a gente viu que de imediato a demanda não mudou. Mas foram passando algumas semanas e a procura começou a aumentar muito”, conta André da Zukerman, Diretor Executivo da Zukerman Leilões, que já entre março e maio havia sentido aumento de 37% nas vendas em relação ao ano passado. “Ainda estão em alta os apartamentos pequenos, studios, perto do trabalho. Não é que isso acabou. Mas como o mundo teve que virar a página para ficar mais digital, as pessoas viram que dá para morar em outro lugar, maior, bem mais afastado do trabalho. Não vale para todo mundo, claro. Mas Alphaville, Itatiba, Atibaia, Itú são cidades que começaram a ter uma demanda absurda.”

Os dados mostram que a percepção da Zukerman é geral. Os paulistanos estão se deslocando pelo território do Estado. Se no primeiro momento a busca se concentrou na locação de imóveis pelo tempo que durar a quarentena, agora o interesse é se mudar definitivamente para outras regiões. Mas a busca por qualidade de vida tem um preço: de acordo com a imobiliária Cadij, houve aumento de 35% nas consultas de imóveis em condomínio com valor de até R$ 1,5 milhão em Campos do Jordão durante o período de pandemia.

“80% das pessoas que compravam imóveis conosco mudavam para um raio inferior a dois quilômetros de onde já moravam, gente que mudava de prédio na mesma rua. Com a pandemia e a mudança de comportamento, videoconferência e a não necessidade de estar no escritório, todas as pessoas têm repensado”, conta Marcello Romero, CEO da Bossa Nova Sotheby’s, e destaca que a valorização de imóveis no campo chegou a 100% em 60 dias.

Os números da empresa impressionam. Em abril e maio as vendas caíram 18% em comparação ao mesmo período de 2019, mas em junho e julho houve salto de 50%, sendo que julho de 2020 fica marcado como o melhor mês da história para a Bossa Nova, ao contrário dos outros anos. Conhecido como um mês fraco por causa do período de férias, neste ano julho somou aumento de mais de 600% na demanda por imóveis de campo em relação a 2019. Já as vendas de imóveis internacionais se mantiveram estáveis.

“Quem pode, troca um apartamento de 80 metros quadrados por uma casa em Jundiaí, a 45 minutos de São Paulo. Não acho que isso vá afetar todo mundo, mas vai acabar sendo interessante, porque as pessoas que ficarem terão menos trânsito, um aglomeramento menor.” Mesmo para quem fica, o quadro é outro. Levantamento da imobiliária digital QuintoAndar registrou queda em diversos bairros considerados queridinhos do público, como Pinheiros (-7%), Vila Mariana (-2%), Butantã (-9%), Bela Vista (-10%) e Moema (-10%). No pódio aparece São Caetano do Sul, com 66% mais buscas entre maio e junho em comparação a janeiro e março, seguido por Diadema (56%), Campinas (20%), Osasco (15%), São Bernardo do Campo (8%) e Taboão da Serra (6%).

Mudança de imóvel… e de comportamento

Outro levantamento da mesma empresa constata que, enquanto a busca por kitinetes ou studios caiu 6% e 10%, respectivamente, a demanda subiu 8% por casas na rua e 20% por casas de condomínio. Ter maior número de cômodos também pesa na decisão. A procura por imóveis com apenas um quarto sofreu queda de 10%, enquanto aqueles com 2, 3 ou 4 quartos tiveram alta de aproximadamente 30%.

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Outra mudança evidente foi a procura por profissionais da arquitetura e decoração. Com mais tempo dentro de casa, o setor celebra a revalorização do profissional que planeja espaços e propõe o uso voltado para a organização e qualidade de vida. Segundo o aplicativo de serviços GetNinjas, a procura por arquitetos subiu 112% entre março e maio de 2020, em comparação ao mesmo período do ano passado. Se a categoria de reformas e reparos esteve entre as mais afetadas na primeira fase da quarentena, com um encolhimento de 51% nas solicitações, o anúncio da retomada gradual das atividades e liberação das obras em unidades autônomas imediatamente representou um saldo positivo. Ao longo de maio, a empresa recebeu um total de 60 mil solicitações por profissionais da área, como pedreiro, vidraceiro, montador de móveis e eletricista.

“Antes as pessoas procuravam o condomínio clube. Agora privilegiam o apartamento em si e não o que o prédio oferece. Está havendo uma retomada nas negociações, inclusive dos imóveis urbanos, mas numa metragem maior. Os imóveis de metragem mais baixa continuam estagnados, as pessoas ficaram mais reticentes em relação a uma nova aquisição. Mas o mercado de luxo e alto padrão continua crescendo”, diz Fernando Nekrycz, sócio fundador da Xaza, plataforma imobiliária.

“É maravilhoso pensar no home office, mas não dá para saber de fato se ele vai ser o novo normal. Estamos há apenas alguns meses nesse tipo de situação, ainda é cedo para saber como a gente vai se comportar daqui para a frente. O que eu penso em relação ao mercado é que temos que olhar para o médio e longo prazo. Eu não tenho certeza se essa demanda não é sazonal. Se surgir a vacina, as pessoas não voltarão a procurar os imóveis que buscavam antes? Vai demorar um pouco pra gente saber que rumo o mundo tomou. Pensar nisso agora pode ser um tiro no pé, principalmente para as incorporadoras”, concluir Fernando.

Mas não é só a possibilidade de home office que faz as pessoas repensarem seu modo e local de trabalho. Outro hábito do período de isolamento social envolve os pets. A procura por animais de estimação mais do que dobrou no período de pandemia e quem decidiu adotar já não pensa mais em voltar a trabalhar como antes, como é o caso da Ana C. Costa, 35 anos, autônoma. “Quando a vida normalizar eu não vou querer voltar para o mesmo ritmo de antes. A adoção do gato tem a ver com isso, essas outras coisas que quero incluir no meu dia, no meu tempo de vida.”

Comerciais devem sofrer mais

Marcello Romero comenta que, desde o início da pandemia até o presente momento, cerca de 110 mil m² de escritórios já foram desalugados na Faria Lima. Na Berrini, ainda segundo o empresário, seriam 70 mil m². “O mercado comercial vai sofrer, o que é uma pena, porque em março estava voltando para níveis pré-crise, em termos de volume de área locada e disponível. Mas eu acho que vai ter sim esse repensar. A procura por residências é sinal disso.”

Dados do FipeZap informam que no balanço dos últimos 12 meses o preço médio de venda do segmento acumula queda de 2,27%, enquanto o recuo registrado no preço médio de locação foi de -0,57%. No início de 2020, antes da pandemia, o Banco do Brasil, por exemplo, tinha um total de 257 pessoas de seus 93 mil trabalhadores trabalhando de casa (menos de 0,3%). Desde março, tudo mudou: o banco colocou 32 mil trabalhadores para operar suas funções a partir da própria moradia. Agora, essa experiência em larga escala vai se traduzir em uma economia de R$ 1,7 bilhão em 12 anos, com a devolução de 19 de um total de 35 edifícios de escritórios que o BB hoje ocupa em sete Estados e no Distrito Federal.

Com o home office estabelecido, até os quartos de hotéis viraram escritórios. De olho no público que precisa trabalhar remotamente e não tem na própria casa um ambiente adequado, os hotéis da rede Accor aproveitaram o crescente número de quartos vagos e criaram um local voltado para o trabalho, promovendo o home office no dormitório. As hospedarias que oferecem esse modelo de operação estão localizadas em grandes centros, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e demais capitais com grande demanda de escritórios.

“Ter um local seguro, confortável e com preço acessível será uma solução para muitos profissionais de diferentes áreas”, afirma em nota o vice-presidente executivo de midscale da Accor no Brasil, Olivier Hick. A Startup de aluguel e compra de residências, QuintoAndar, já anunciou que terá home office até dezembro e depois permitirá que times trabalhem indefinidamente de casa. A mudança na forma de organizar as equipes pode mudar radicalmente a política do QuintoAndar para contratações – afinal, será possível arregimentar funcionários que não estão necessariamente em São Paulo, um mercado em que há escassez de programadores e desenvolvedores. E caso esse tipo de política seja adotado por mais empresas, pode até mudar a maneira como as cidades se organizam – se não é preciso morar perto do trabalho, preços de habitação mudam (e o próprio negócio do QuintoAndar pode ser afetado).