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[OPINIÃO] Copan se consolida na vanguarda dos edifícios monumentais

Elisa Rosenthal é diretora do Instituto Mulheres no Imobiliário

Por:Elisa Rosenthal 30/01/2026 4 minutos de leitura
"O Copan é uma contradição produtiva e o instituto que nasce agora é a prova de que as melhores soluções urbanas surgem quando começamos a ver possibilidades"/ Crédito: Wagner Vilas/AdobeStock

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Há cerca de 25 anos, o telefone tocou no escritório do arquiteto Ciro Pirondi. Do outro lado da linha, Oscar Niemeyer. O convite: ajudar a restaurar e ocupar novos espaços do Copan, retomando ao máximo possível o projeto original de um edifício que havia sofrido inúmeras modificações desde sua concepção, nos anos 1950.

Naquele momento, nem Pirondi nem Niemeyer imaginavam que aquela conversa plantaria a semente de algo muito maior: o Instituto Socio Cultural Copan, uma inovação institucional que pode redefinir como cuidamos de patrimônios privados de interesse público.

Sentada diante do professor Ciro Pirondi, diretor-executivo da Fundação Oscar Niemeyer e um dos fundadores da Escola da Cidade, ouço dele a história de uma contradição que se transformou em solução:

“O Copan é um condomínio privado que dificilmente pode captar recursos públicos para se manter”, explica. “Mas ele é, ao mesmo tempo, uma obra simbólica tombada, de relevância mundial para a arquitetura. Como resolver esse impasse?”

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A resposta veio na forma do Instituto Sócio Cultural Copan, uma organização sem fins lucrativos criada para captar recursos destinados exclusivamente às áreas públicas do edifício, aprovada em assembleia em 15 de janeiro.

Os recursos arrecadados pelo instituto não são para reformar apartamentos privados, mas para restaurar a fachada, criar o museu de arquitetura brasileira no topo do prédio, para transformar espaços coletivos em pontos de convívio e cultura. “A ideia é dar uso e ocupação coletiva nas áreas coletivas do Copan”, resume Pirondi.

O projeto é ambicioso e poético. O museu na cobertura terá exposição permanente do acervo de Oscar Niemeyer, área de convívio, café, restaurantes e aquilo que Pirondi chama de “museu vivo da cidade” – as próprias vistas de 360 graus que revelam São Paulo em toda sua complexidade: a Paulista, a Serra da Cantareira, a Catedral da Sé.

Para viabilizar o acesso sem conflito com os moradores, será construído um elevador independente em terreno anexo. “O Copan é um ponto de acupuntura da cidade”, diz Pirondi . “Quando você faz algo ali, cada vez mais irradia para o entorno.”

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E o momento parece propício. A Prefeitura já destinou quase R$ 14 milhões para a restauração da fachada. A Unesp está mudando sua reitoria para a Praça da República, criando o que chamam de “território da educação e da cultura” naquele entorno. O Copan recebe anualmente 9 mil estudantes de arquitetura do mundo inteiro. São 5 mil pessoas que passam diariamente pela galeria interna e outras 9 mil pela galeria externa.

As dimensões são impressionantes: 120 mil metros quadrados, 1.160 apartamentos, 5,3 mil moradores e 72 estabelecimentos comerciais. “É como se fosse uma cidade de 6 mil habitantes”, compara Pirondi.

A questão ambiental também está no centro do projeto do Instituto. Aquelas calçadas de 10 metros, as áreas não utilizadas, o terraço de 1,5 mil metros quadrados nas traseiras – tudo será repensado sob a ótica da sustentabilidade. “O Copan precisa entrar na contemporaneidade da cidade, e isso significa enfrentar a questão ambiental”, afirma. Não por acaso, Pirondi recebeu em 2024 o Global Award for Sustainable Architecture, com o tema “Arquitetura é Educação”.

Em nossa conversa, faço um parêntese pessoal: meu pai, de 82 anos, mora há mais de doze anos no Copan. E eu costumo dizer que, se existe um exemplo redondo de senior living no Brasil, é ali. A mistura de gerações, a comunidade, a acessibilidade das rampas, a vida pulsante da galeria. “É um município dentro do município, só que vertical”, concorda Pirondi, sorrindo.

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O modelo do Instituto Copan pode – e talvez deva – ser replicado. Edifícios como o Conjunto Nacional e tantos outros ícones modernistas da cidade enfrentam a mesma contradição: são patrimônios coletivos juridicamente privados. “Essa contradição que criamos entre o privado e o público não existe de fato”, provoca Pirondi. “Porque um bem privado, para existir, precisa de todos os bens públicos. Por que não fazemos esse caminho ser mais horizontal e harmônico?”

E para quem nunca visitou o edifício? “É só chegar e andar por ali”, convida. Cinema, galeria de arte, livraria, restaurantes, padarias, queijaria. Um município inteiro esperando para ser descoberto. Ou redescoberto.

Enquanto me despeço de Pirondi, penso naquela ligação de 25 anos atrás. Oscar Niemeyer, do Rio de Janeiro, chamando um arquiteto paulistano para cuidar de sua obra mais emblemática em São Paulo. Hoje, o que nasceu como um projeto de restauro se transformou em algo maior: um modelo de como a arquitetura pode servir à cidade sem abdicar da complexidade de ser, ao mesmo tempo, privada e pública, íntima e monumental, moradia e símbolo.

O Copan sempre foi isso: uma contradição produtiva. O Instituto que nasce agora é a prova de que as melhores soluções urbanas surgem quando paramos de ver contradições e começamos a ver possibilidades.

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