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[OPINIÃO] Presença asiática está redesenhando produto e estratégia no marketing imobiliário

Flávia Schmidt é sócia-fundadora da Talk Strategic

Por:Flávia Schmidt 26/02/2026 3 minutos de leitura
"À medida que a presença chinesa se consolida em centros urbanos estratégicos, quem souber interpretar essas nuances terá vantagem competitiva"/ Crédito: D. Kvasnetskyy/AdobeStock

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O avanço das relações entre Brasil e China, somado à recente flexibilização de vistos para visitantes chineses, acelera um movimento já perceptível no mercado brasileiro. O aumento consistente de empresas chinesas e de profissionais expatriados vem impulsionando a criação de produtos imobiliários e estratégias de marketing direcionadas a um público com hábitos, referências culturais e padrões de consumo distintos dos brasileiros.

Mais do que uma tendência pontual, trata-se de uma mudança estrutural que começa a influenciar decisões de produto, comunicação e posicionamento de marca no setor imobiliário.

De acordo com a consultoria Newmark, as principais empresas chinesas no Brasil estão situadas ao longo do corredor de negócios entre os bairros paulistanos da Vila Olímpia e Chucri Zaidan, num raio de até 3 quilômetros entre si. Naturalmente, esse fluxo de executivos e colaboradores expatriados passa a impactar diretamente o perfil de locação e a concepção de novos empreendimentos.

Já existem projetos que consideram preferências culturais chinesas desde o layout interno dos apartamentos até áreas comuns e serviços. No caso da JFL Living, empresa pioneira no modelo multifamily de alto padrão no Brasil, a imigração chinesa levou a adotar placas em mandarim no prédio para orientar os novos inquilinos, e a adicionar pratos típicos da China no cardápio do serviço de café da manhã, similar ao de um hotel.

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Em algum momento, o modelo built to suit poderá também incorporar referências culturais desde a concepção arquitetônica até a operação do empreendimento, sinalizando uma nova etapa do multifamily corporativo no Brasil.

Do ponto de vista do marketing imobiliário, isso exige uma abordagem mais estratégica e menos padronizada. Não se trata apenas de promover um empreendimento convencional, mas de comunicar diferenciais que façam sentido dentro de outra lógica cultural e de consumo. Folder de vendas, materiais institucionais, apresentações corporativas e discursos comerciais precisam traduzir com clareza como o projeto atende às expectativas desse público específico e, principalmente, como ele se integra ao cotidiano desses moradores.

O modelo de decisão também se altera. Em muitos casos, a comercialização não acontece diretamente com o comprador final, mas por meio de empresas chinesas instaladas no Brasil ou intermediadores responsáveis pela moradia de executivos e colaboradores expatriados. Isso exige do marketing uma visão ampliada dos canais de relacionamento e da jornada de decisão, que passa a envolver departamentos corporativos, consultorias de relocation e redes de indicação internas.

Além da adaptação do produto e da comunicação, surge um terceiro ponto fundamental: o entendimento do entorno como parte do branding imobiliário. Empreendimentos voltados a esse público passam a demandar um ecossistema que dialogue com seus hábitos e expectativas. Supermercados com maior oferta de produtos asiáticos, serviços com atendimento bilíngue, restaurantes e conveniências alinhados ao consumo cotidiano e a incorporação de calendários culturais – como o Ano Novo Chinês – ao planejamento de relacionamento tornam-se diferenciais competitivos relevantes.

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Nesse contexto, o branding imobiliário deixa de ser apenas uma construção estética ou publicitária e passa a incorporar adaptação cultural como estratégia de valor. Traduzir materiais para o mandarim, por exemplo, é apenas o primeiro passo. O desafio real está em compreender comportamento, expectativas de moradia, padrões de convivência e referências simbólicas que influenciam a percepção de qualidade e conforto desse público.

O crescimento de modelos como multifamily e built to suit se conecta diretamente a essa demanda, atendendo empresas que necessitam de moradia estruturada para equipes transferidas. Ao mesmo tempo, a maior circulação de profissionais chineses no país pode estimular tanto a locação de médio prazo quanto a aquisição de imóveis para uso corporativo ou familiar.

Para incorporadoras, construtoras e empresas de serviços, o recado é claro: a presença chinesa no Brasil exige uma leitura mais sofisticada do mercado imobiliário. Não basta replicar referências nacionais ou adaptar superficialmente a comunicação. É necessário desenvolver inteligência cultural, monitorar o comportamento desse público e compreender como suas necessidades impactam produto, serviços e experiência de moradia.

À medida que a presença chinesa se consolida em centros urbanos estratégicos, quem souber interpretar essas nuances terá vantagem competitiva. O mercado imobiliário brasileiro começa a entrar em uma fase em que diversidade cultural e estratégia caminham juntas, e o entendimento profundo desse movimento poderá transformar a adaptação em valor e oportunidade de longo prazo.

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