[OPINIÃO] IA e robótica na construção: por que 2026 pode marcar um ponto de virada para o setor?
Cristiano Gregorius é diretor executivo do Ecossistema Sienge
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Se 2024 e 2025 foram anos marcados por testes, provas de conceito e projetos-piloto, 2026 tende a ser o período em que a inteligência artificial e a robótica ganham escala na indústria da construção. A pressão por redução de custos e prazos, aliada à escassez de mão de obra e à maturidade das plataformas digitais, aceleram uma mudança estrutural no setor.
Nesse novo contexto, a discussão deixa de ser se vamos usar IA e robôs e passa a ser mais estratégica: em 2026, quais decisões e tarefas devem ser automatizadas primeiro para tornar a operação mais previsível?
Essa mudança de foco já pode ser observada nos números do setor. De acordo com o Report de Inteligência Artificial na Construção Civil, uma iniciativa do Ecossistema Sienge e da GRUA Insights, o uso de IA nas atividades profissionais saltou de 15% em 2023 para 38% em 2025, mas apenas 28,9% das empresas adotam IA de forma institucionalizada, revelando um grande potencial de transformação em 2026.
Em um ambiente cada vez mais pressionado por custos, o cumprimento de prazos e a escassez crescente de mão de obra criam um cenário em que decisões sustentadas apenas em experiência e intuição se tornam insuficientes. A construção, historicamente dependente do “feeling” dos gestores, começa a migrar para uma lógica orientada por dados. Modelos de IA capazes de cruzar históricos de produtividade, custos, logística e riscos externos elevam o nível do planejamento e permitem antecipar problemas antes que eles se transformem em prejuízos.
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Nesse momento, a integração da IA aos fluxos de trabalho deixa de ser um diferencial e passa a ser o mínimo esperado. Copilotos operacionais conectados a sistemas de gestão já não servem apenas para gerar relatórios, mas para automatizar tarefas, padronizar informações e apoiar decisões críticas em orçamento, planejamento, compras e controle da obra.
Empresas que não possuem processos bem definidos e dados confiáveis tendem a investir em ferramentas sem extrair valor real delas, um erro que tende a custar caro a partir de agora.
Modelos de IA avançam na previsão de desvios, identificação de riscos e recomendação de ações preventivas. Em vez de decisões tomadas apenas na experiência individual, algoritmos passam a cruzar históricos de produtividade, custos, mudanças de projeto, logística e até fatores externos. O ganho está na antecipação: problemas deixam de ser percebidos quando já impactaram prazo e custo, e passam a ser tratados ainda em estágio de alerta, elevando a maturidade do planejamento e da gestão de mudanças.
A robótica segue o mesmo caminho. Depois de anos restrita a demonstrações e vitrines tecnológicas, começa a ocupar espaço no dia a dia do canteiro, especialmente em atividades repetitivas ou de risco controlado. O debate sobre substituição de pessoas perde força quando se observa, na prática, que o papel das equipes muda: menos esforço físico, mais supervisão, setup e manutenção. O impacto positivo aparece na segurança, na retenção de profissionais e na produtividade.
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Outro ponto decisivo é a transformação do canteiro em uma fonte contínua de dados. Drones, scanners, sensores e visão computacional permitem monitorar avanço físico, qualidade e segurança quase em tempo real. Essas tecnologias viabilizam inspeções automatizadas, identificação rápida de não conformidades e atualização mais fiel do as-built, reduzindo retrabalho e surpresas no fim da obra. A tendência é que, primeiro, essas soluções sejam usadas para captura e análise de dados, antes de avançarem para automação pesada de tarefas físicas.
A industrialização da construção também ganha protagonismo como resposta direta à falta de mão de obra qualificada. Ambientes controlados, como fábricas de módulos e painéis, permitem maior automação, padronização e rastreabilidade. O resultado é menos variabilidade, menos desperdício e maior previsibilidade – exatamente o que o modelo tradicional tem dificuldade de entregar.
No fim das contas, o diferencial competitivo não estará na tecnologia da moda, mas na capacidade de conectar informações de projeto, obra, suprimentos e finanças de forma coerente. A interoperabilidade deixa de ser um desafio operacional e passa a orientar decisões estratégicas. Quem consegue organizar dados, dar contexto a eles e agir com rapidez ganha vantagem real no mercado.
Em 2026, o setor entra em uma fase de consolidação, em que integrar dados, processos e pessoas será tão estratégico quanto adotar novas ferramentas. O desafio não estará mais no acesso à inovação, mas na capacidade de transformá-la em valor consistente e sustentável ao longo dos projetos.
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