Imagine morar em um bairro repleto de imóveis históricos que marcam um período histórico e preservam a memória de personalidades e de um tempo distante? Além da beleza, a paisagem urbanística pode se constituir em verdadeiro museu a céu aberto, guardando coleções ou servindo como local de mostras e encontros artísticos.

“No momento em que uma construção antiga é demolida, perde-se de maneira irreversível um testemunho dos imóveis históricos que deram forma àquela região”, comenta Gabriel Rostey, consultor em política urbana, patrimônio cultural e turismo, fundador e ex- Secretário Geral da Associação Preserva São Paulo e membro do Conselho Municipal de Política Urbana.

“O nível de preservação em São Paulo é baixíssimo. O Rio de Janeiro tem mais de 30 mil construções com algum nível de preservação. Porto Alegre, mais de 5 mil. Nova Iorque, 37 mil”, afirma Rostey.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, afirma que existem cerca de 4 mil bens tombados na cidade, que possui para consulta a plataforma Geosampa e todas as resoluções de tombamento estão no site institucional da Secretaria, na página do CONPRESP.

Atualmente, existem 11 processos de tombamento abertos na cidade de São Paulo. “O problema não é apenas a atividade imobiliária, ela poderia ser melhor e evitar demolições.

O modelo de construções poderia ser diferente, mas o problema é de legislação e falta de atuação do poder público. É o Estado que deveria fazer uma política de preservação. Não se pode permitir que a memória da cidade seja apagada ”, diz. 

Dados da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL) sobre Alvarás de Demolição emitidos na cidade entre 2015 e 2021 mostram que, em 2020, ano mais crítico da pandemia de Covid-19, foram emitidos 1363 alvarás, um recorde.

No mesmo ano, a subprefeitura de Pinheiros foi responsável por 382 alvarás, 28% das emissões de pedidos entre 32 subprefeituras. No acumulado dos quase 7 anos, foram emitidos 5943 Alvarás de Demolição, sendo 1.053 alvarás só em Pinheiros, 18%, e 1.032 na Vila Mariana, 17%, segunda maior subprefeitura com pedidos. Já a subprefeitura da Mooca acumula 583 no total do período.

Em nota, a assessoria comenta que os números referem-se a todos os tipos de Imóveis históricos, não apenas os antigos e são referentes a alvarás emitidos para demolição pela secretária e não, necessariamente, demolições realizadas.

Não estão incluídas no levantamento as solicitações de demolição que são feitas em conjunto com os pedidos de “Alvará de Aprovação e Execução de Edificação Nova”, “Alvará de Execução de Edificação Nova”, “Alvará de Aprovação e Execução de Reforma” e “Alvará de Execução de Reforma”. Esses dados não estão consolidados pelo Município.

Para o historiador, não é normal percorrer a cidade e não conseguir identificar quais os períodos históricos no desenvolvimento das construções. “Em São Paulo, parece que foi determinado que para ver a história da cidade, precisar pegar trem.

Tudo fica concentrado no centro.” De acordo com Rostey, bens protegidos estão mais concentrados na Bela Vista, Higienópolis e na Liberdade, por exemplo.

Entre os imóveis mais importantes de São Paulo está o Pátio do Colégio, cujo projeto original foi um colégio, posteriormente demolido para construção do Palácio do Governo, pensado por Ramos de Azevedo e, depois, foi novamente demolido para a reconstrução do colégio.

“Ali é um bom exemplo de demolição, reconstrução e preservação dos vestígios dos imóveis históricos da cidade. Um lugar muito representativo além de ter sido o marco de fundação da cidade”, afirma.

Segundo Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, as edificações mais antigas na cidade são a Igreja de Santo Antônio da Praça do Patriarca, fundada no século XVI, e a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, construída em taipa de pilão entre 1747 e 1758.

Em 2015, o  Acervo Estadão, reuniu a história dos 100 edifícios que fizeram história na série Prédios de S.Paulo, usando seus anúncios publicados nos classificados do jornal para destacar construções importantes para a preservação histórica da cidade e do País. Ainda é possível visitar e conhecer alguns dos locais elencados:

Imóveis históricos da região central – Casa número 1

Atual Casa da Imagem – sede do acervo iconográfico de São Paulo, localizada na Rua Roberto Simonsen, 136B, na região da Sé, é uma residência da segunda metade do século 19, construída em 1689 – no antigo estilo de taipa de pilão (material a base de argila e cascalho) para erguer as paredes, características comuns em construções paulistas entre os séculos passados.

Seu primeiro proprietário foi Francisco Dias. Após seu falecimento, foi vendida para o bandeirante Gaspar Godoy Moreira. Já foi colégio em 1855 e, depois da morte do último diretor, foi comprada pelo Major Benedito Antônio da Silva, responsável pela construção em alvenaria que se mantém até hoje.

Imóveis históricos da Avenida Paulista – Casa das Rosas

Construída em 1935, a mansão Casa das Rosas possui incríveis 38 cômodos e foi a residência da família de Ramos de Azevedo durante os primeiros 51 anos, passando por algumas gerações.

Foi construída com estilo clássico francês por Francisco de Paula Ramos de Azevedo, o mesmo arquiteto responsável por obras como a Pinacoteca de São Paulo, Teatro Municipal e o antigo prédio da Light, hoje Edifício Alexandre Mackenzie ou o “Shopping Light”.

A casa foi tombada pelo patrimônio histórico em 1991 e hoje seu principal atrativo, além da arquitetura clássica, é pelas rosas que são cultivadas no jardim. A casa também é um espaço cultural dedicado à leitura. Atualmente, a Casa das Rosas iniciou obras de restauro que devem durar dois anos.

Solar Marquesa de Santos – Sé

Ao lado da Casa da Imagem, a Casa Nº 1, está um sobrado do século XVIII em estilo neoclássico, construído em 1834. Assim como o nome sugere, teve como moradora a própria Maria Domitila de Castro. A Marquesa de Santos foi amante de Dom Pedro I. O local se tornou espaço de exposições culturais e guarda utensílios domésticos da sua antiga dona. Foi tombado em 1971.

Memorial da Resistência

O edifício no Largo General Osório, 66 – Santa Ifigênia, foi construído em meados de 1914 e teve o Escritório Técnico de Ramos de Azevedo como responsável pela obra. Seria ocupado inicialmente para fins empresariais, mas passou a abrigar parte do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS-SP), que foi modificado e transformou salas em celas para presos políticos durante a Ditadura Militar (1964-1985).

O imóvel se tornou um importante espaço dedicado à preservação da história de resistência à repressão política da época.


Cuidado pela Pinacoteca, o espaço busca trazer reflexão sobre violência, direitos humanos e a história da Ditadura Militar e suas vítimas. Entre as atividades, o espaço já recebeu uma exposição sobre Luta Política na Ditadura e hoje expõe a memória do espaço carcerário e reforça a inspiração, valorização de princípios democráticos e respeito às diferenças.

Pinacoteca de São Paulo

O edifício foi construído mais de uma década depois do Pina Luz, em 1900, para ser a sede do Liceu de Artes e Ofícios. É o museu de arte mais antigo de São Paulo, fundado em 1905 e regulamentado como Museu Público Estadual a partir de 1911. Foi projetado por Ramos de Azevedo e Domiziano Rossi e está aberta, com várias exposições em cartaz.