Os proprietários de um loft de 185 metros quadrados no bairro de Chelsea adoravam antiguidades e haviam mobiliado o apartamento de acordo. Tinham um armário de porcelana coberto com pergaminhos esculpidos e um relógio de pêndulo em pé perto da porta. Tapetes persas acolchoavam o chão. E tudo estava atrapalhando a venda. “Eram peças muito caras e preciosas, mas não se encaixavam no que se espera de um loft no Chelsea”, conta Charlie Miller, um agente da Corcoran que representou os proprietários junto com sua colega, Laurie Lewis. “Não combinava com o tipo de comprador que olharia o espaço.”

Os proprietários resistiram em remover os móveis e os corretores não ficaram satisfeitos com o nível inicial de interesse no condomínio. Então, eles tiraram fotos dos quartos e usaram a tecnologia para dar ao apartamento uma aparência diferente. A primeira foto da lista foi uma reprodução digital da sala de estar, um grande espaço com uma parede de janelas. “Nós praticamente derrubamos as paredes e colocamos uma impressão moderna”, contou Lewis. “Vendemos em questão de semanas.” Numa época em que programas de televisão e revistas de design doméstico enfatizam cores claras e interiores discretos, pode ser mais difícil vender casas mobiliadas com antiguidades. Peças grandes, em particular, podem fazer com que uma propriedade pareça menor do que é ou ocultar recursos desejáveis.

Deborah Ribner, agente de Warburg, recentemente representou um apartamento de 167 metros quadrados, em Sutton Place, que fazia parte de uma propriedade. O falecido dono adorava antiguidades: 16 lustres pendiam do teto e a mesa da sala de jantar tinha 12 anos, com uma cadeira semelhante a um trono em uma extremidade. “Cada quarto tem uma vista mais espetacular do que o outro”, disse Ribner. “Mas estava tudo tão cheio que era difícil apreciar.” Ela ajudou a filha do proprietário a limpar as antiguidades e então receberam várias ofertas. Conseguiram um contrato em cinco semanas.

Numa época em que os chamados “móveis marrons” estão muito desvalorizados, as antiguidades podem fazer com que uma propriedade pareça desatualizada e menos atraente para os compradores – especialmente os mais jovens. Isso pode significar conversas delicadas entre proprietários e agentes imobiliários, que precisam recorrer a explicações, persuasões e soluções criativas, como a simulação virtual, para tornar as casas mais comercializáveis. “Se eles são pessoas de negócios, digo-lhes que o que estou vendendo é o espaço”, disse Robin Kencel, corretora da Compass em Greenwich, Connecticut. “Se estou trabalhando com um vendedor que está mais emocionado com o mobiliário, vou com mais cuidado. Pego fotos de revistas ou de galerias de design, porque essa é uma fonte comum se o comprador tiver entre 35 e 45 anos.”

Relíquias no armário

O problema é agravado pelo fato de que a maioria dos móveis antigos caiu drasticamente de valor nas últimas duas décadas. Vender um aparador do século 19 que você ama pelo dobro do preço original é uma coisa. Implorar por ofertas no Craigslist é bem outra. William e Mary-Claire Barton herdaram alguns móveis antigos de suas famílias e, nos anos 80, começaram a colecioná-los como investimento. “Eu convenci Bill”, disse Barton, 70 anos, ex-proprietária e diretora da Hoorn-Ashby Gallery em Nantucket e Nova York. “Se vendermos isso quando estivermos velhos, eles terão valorizado muito. Mas, adivinha? Não aconteceu.”

Isso representou um desafio doloroso, já que o casal se mudou de um apartamento de três quartos no Musician’s Building, na 50 West 67th Street, para um espaço menor nas proximidades. “Receber alguns trocados quando vamos vendê-los… não é legal”, desabafou William Barton, agente da Corcoran. O casal telefonou para uma famosa casa de leilões para avaliar uma mesa de jogo e cadeiras modelo George V, que eles compraram por US$ 10.000 em 2006. “Ele disse: ‘eu amo isso e todos vão adorar'”, contou Barton. Mas provavelmente seria vendido por apenas US$ 1.200.

O imóvel dos Bartons data de 1919 e eles esperavam que um comprador com uma inclinação tradicional desejasse manter alguns de seus móveis. Vários compradores europeus gostaram da decoração, mas isso não resolveu o problema: “Tínhamos três visitantes diferentes que mantinham antiguidades da família. Mas daí eles precisavam que a nossa mobília fosse retirada para que a coleção deles coubesse no espaço.” Os filhos dos Bartons pensaram em ficar com algumas peças e procuraram compradores de imóveis, mas os preços oferecidos eram muito baixos para a venda valer a pena. Eles até entraram em contato com a administração da cidade para perguntar se poderiam doar móveis para pessoas em situação de rua que estão se reerguendo.

A arte do desapego

“Marron não vende”, declarou Amos Balaish, proprietário da New York Estate Buyers e Showplace Antique + Design Center, no Chelsea. Ele acrescentou que costumava haver um forte mercado de antiguidades “no sul, mas eles nem compram mais. É meio triste”. Ele e seus funcionários têm muitas conversas difíceis com clientes em potencial que desejam vender seus móveis. Andrea Baker, gerente da Showplace, disse que o mercado de tapetes caiu 90%.

“Há o elemento da moda que faz as coisas circularem periodicamente, mas há outra trajetória, que é a vida se tornando cada vez menos formal”, disse ela. “Nos últimos 300 anos, houve uma tendência de queda.” Isso não significa, porém, que os proprietários de antiguidades precisem agendar a entrega a um depósito de lixo. Primeiro, Dennis Harrington, chefe do Departamento de Móveis Ingleses e Europeus da Sotheby’s em Nova York, afirmou que o mercado de móveis marrons parecia ter chegado ao fundo do poço. “É muito cedo para falar sobre um retorno, mas tivemos um ligeiro aumento de interesse nos últimos dois anos”, ponderou depois.

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Mas a primeira coisa que um vendedor deve fazer é começar a eliminar as antiguidades o mais rápido possível. “Eu diria que, assim que você pensa em colocar a propriedade no mercado, já está na hora”, reflete a senhora Kencel. Decida do que você quer se livrar e descubra quais itens os parentes vão querer. Ela gosta de usar um método de adesivo, colocando cores diferentes nas peças que serão doadas ou vendidas. Se o processo for realmente esmagador, pode valer a pena contratar um organizador, decorador ou avaliador que esteja disposto a receber pagamento por hora para ajudar.

Se você suspeita que possa ter algo valioso, entre em contato com uma das principais casas de leilão. “Não se deixe intimidar pela marca e pelo nome”, disse Harrington. Se não estiverem interessados, encaminharão a outras fontes. Se estiverem, pedirão fotografias e toda a documentação que você tiver, para ter uma ideia do valor da peça. O mesmo acontece com os compradores de imóveis, embora Balaish tenha dito que fotos mais amplas do imóvel são mais úteis, porque o que você considera valioso pode ser que não seja de fato. Um cliente recente queria vender duas cadeiras do século 19 que originalmente lhe custaram US$ 12.000. “O valor de mercado atual para elas é de US$ 1.000”, explicou Balaish. “Mas ela tinha lâmpadas de plástico que comprou por quase nada. São da metade do século passado, podemos pagar um pouco mais por isso.”

Adam Blackman, co-proprietário da galeria de móveis de Los Angeles, Blackman Cruz, que lida com móveis novos e antigos, ressalta que existem muitas casas de leilão regionais e locais que vendem móveis – e que os vendedores não precisam desanimar se seus pertences forem rejeitados. “Siga a lista.” Para peças do século 20, ele entraria em contato com os leilões de Wright, em Chicago. Bonhams, que tem escritórios em várias cidades dos EUA, aceita itens mais refinados. Para ele, a Abell Auction Company, em Los Angeles, é uma boa parada final, com leilões semanais.

Isso ajuda a lembrar quais tipos de peças são mais fáceis de vender. Itens menores e mais versáteis, como mesas laterais ou compactas, têm mais chances de encontrar um lar, disse Baker. Harrington afirma que o suprimento de mesas de jantar antigas superou em muito a demanda, mas que as versões expansíveis tiveram algum apelo – ao contrário de grandes mesas com tampo de vidro e armários de frente inclinada. “As pessoas não leem ou escrevem como costumavam fazer”, ele disse.

Vivendo com o marrom

Apesar da popularidade da Ikea e da West Elm e também do fechamento de lojas de antiguidades de Nova York à Califórnia, nem todo mundo evita peças antigas. Nem deveriam. “Charles e Ray Eames tinham coisas de suas viagens, mas também tinham antiguidades”, disse Blackman. “Você quer as camadas, a profundidade, o contraste.” Quando usadas com cuidado, as antiguidades podem dar mais conforto e riqueza à casa. Depois que os pais da designer de interiores Christina Murphy morreram há alguns anos, ela teve que esvaziar e vender suas duas casas mobiliadas de forma tradicional, uma na Flórida e outra no Maine. Ela contava com um liquidatário imobiliário na Flórida; a casa do Maine foi vendida mobiliada, mas os compradores deixaram Murphy escolher peças com motivo de cerejeira para guardar em sua própria casa em Manhattan.

“Fiquei pensando comigo mesma: compraria isso se visse em uma loja de antiguidades?”, refletiu Murphy. “Se a resposta foi não, eu não peguei.” Ela colocou uma grande mesa redonda com uma base elaboradamente esculpida e folhas de ouro em sua sala de estar quase toda branca, uma abordagem que Darryl Carter apoia. Ele tem uma loja de mesmo nome e uma empresa de decoração de interiores em Washington DC. “A inovação é a coisa crítica”, disse ele. “As antiguidades podem se apresentar como um vernáculo muito moderno se estiverem em um espaço branco.” A proporção também é importante, de acordo com Murphy. Para manter um quarto jovem e fresco, ela aconselha manter antiguidades em menos de 25% dos móveis. “Definitivamente, não pode começar a avançar para os 50%”, disse ela. “É caso a caso. Art déco parece tão moderna, mas um objeto vitoriano ruim pode arruinar toda a paisagem. Então a proporção precisa baixar para 3%.”

Segundo Carter, melhor dar a uma peça monumental bastante espaço para respirar. E considere a cor com cuidado. A madeira ebanizada pode soar moderna, observou Murphy, e é mais fácil se encaixar no espaço. “Quando os marrons têm um tom realmente avermelhado fica muito mais difícil”, disse ela. Uma solução seria pintar o móvel. “Especialmente se não estamos lidando com as preciosas antiguidades. Às vezes elas podem ser valorizadas com uma camada de tinta”, disse Carter. “Além disso, se você colocar couro branco em uma cadeira antiga, de repente ela fica bastante moderna.”

Se apropriando novamente

Kim Schmidt, negociante de arte, e Andre Wlodar, vice-presidente de jornal da Cellmark, viajaram bastante, reunindo garrafas de boticário, candelabros e querubins seculares em todos os lugares, de Cracóvia à Guadalajara. Os objetos encheram seu apartamento e eles ainda tinham iluminação especial instalada. Mas quando decidiram reduzir o tamanho do Upper West Side há três quartos, há um ano, sua agente, Ann Cutbill Lenane, de Douglas Elliman, foi firme.

“Tivemos que remover entre 25% e 30% de nossos móveis pessoais”, contou Wlodar. Eles tiraram livros e obras de arte mais ousadas. Lenane ainda os fez pintar as paredes de branco. “Isso. Foi. Duro”, contou Schmidt. E o senhor Wlodar ainda acrescentou: “A partir desse momento, comecei a sentir que não era mais o nosso apartamento e isso doía.”

Eles se mudaram para seu novo lar em julho. É menor e mais moderno, com toneladas de luz. O casal está feliz com a mudança. Schmidt confirma que “é bom estar consciente das suas coisas”. Ajuda que eles tenham uma casa no norte de Nova York que planejam expandir. “Já estamos projetando para onde as coisas vão”, concluiu Wlodar. / TRADUÇÃO DE ELENA MENDONÇA