Nosso quarto de brinquedos estava repleto de objetos piscantes e agitados, quebra-cabeças e jogos organizados, prateleiras repletas de livros ilustrados, bonecas bastante usadas, fantasias e desenhos pendurados nas paredes. Parecia um paraíso para os nossos três filhos pequenos. Até Simone Davies virá-lo de cabeça para baixo.

Davies, professora Montessori na Holanda e autora de “The Montessori Toddler” (A Criança Montessori, em tradução livre do inglês), passa seus dias ensinando pais e filhos a aplicar os princípios Montessori em casa. Assim como Marie Kondo ajuda pessoas a se livrar do excesso de coisas e se organizar, Davies ajuda pais a transformarem suas casas em lugares mais funcionais, transmitir um senso de autonomia aos integrantes pequenos da família e criar uma sensação de paz – tudo de acordo com o espírito Montessori.

Ela veio à minha casa em Nova Jersey há algumas semanas com a intenção de me mostrar como criar uma sala que estimulasse meus filhos, em vez de um lugar que satisfizesse as minhas noções do que torna um espaço bom para brincar. Eu estava cética: o que poderia ser feito para proporcionar uma melhora significativa em nossas vidas?

Desenvolvido no final de 1800 pela doutora Maria Montessori, médica italiana, o método Montessori usava abordagens educacionais para ajudar crianças com deficiências emocionais e mentais. Hoje, ele se tornou um sistema instrucional amplamente aceito, que visa dar a qualquer criança mais propriedade em seu aprendizado. “Na educação tradicional, o professor fica na frente da sala e comanda a aula”, disse Davies. “Em uma abordagem liderada por crianças, nós permitimos que elas aprendam por meio do brincar e dos interesses delas.”

O objetivo de aplicar esses princípios em casa? Crianças mais autônomas e engajadas e menos tempo gasto ajudando-as a descobrir o que fazer para passar o tempo. Em casa, “incentivamos nossos filhos a fazer descobertas por si próprios, damos a eles liberdade e limites e possibilitamos o sucesso arrumando nossos lares de modo que eles possam participar de nossas vidas diárias”, escreve Davies.

Foi essa última parte da promessa que mais me atraiu: meus filhos iriam se divertir sem precisar da minha intervenção? Na teoria parecia ótimo. Meu marido e eu temos três filhos, com idades de 1, 4 e 7 anos, e os dois trabalhamos fora em empregos exigentes, além de termos uma cuidadora e avós no pacote.

Eu costumava ter um lugar para tudo, mas com tanta gente diferente cuidando das crianças, muitas vezes me frustrava quando as coisas não estavam onde “tinham de estar”. Mas, se as crianças pudessem lidar com as responsabilidades de manter um quarto de brincar arrumado, talvez essa frustração pudesse ser aliviada.

Porém, assim que a Sra. Davies começou a tirar todos os objetos do meu armário de brinquedos obsessivamente organizado, comecei a sentir um estágio inicial de pânico. “Quais são os brinquedos favoritos dos seus filhos?”, Davies perguntou.

“O iPad e o Kindle”, eu disse, fingindo estar só meio brincando. Ela começou a trabalhar. Havia arrumação a ser feita. (Achamos todas as peças do quebra-cabeça que tinham sumido!) As cores primárias do nosso cavalete foram pintadas de cinza neutro, para dar mais destaque aos desenhos das crianças.

Tiramos do chão do quarto de jogos brinquedos grandes, barulhentos ou que causassem distrações, para dar lugar a brinquedos mais suaves de madeira. Usamos móveis e brinquedos que tínhamos, mantendo o orçamento da reforma modesto. E a grande revelação: um quarto de brincar inegavelmente mais organizado, mais calmo e convidativo. Eis algumas das mudanças que tiveram o maior impacto.

Cantinho de leitura

Meus filhos mais velhos costumavam tirar livros de uma estante lotada e freqüentemente os deixavam largados pela casa. Davies demarcou um canto com uma colcha velha e macia no chão, aconchegada com almofadas não usadas e alguns brinquedos favoritos.

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Para minha surpresa, ela então tirou todos os livros da estante, agrupou-os no armário de cada criança e colocou só alguns em cestas. A estante se tornou um espaço de exibição de pequenas plantas (que eu tinha comprado por US$ 9 cada), fotos dos meus filhos e algumas lembranças favoritas deles.

Sem a coleção de livros nas prateleiras, o canto parecia mais calmo. “Crianças se sentem mais relaxadas em um quarto neutro”, disse Davies. Até agora, minhas filhas amaram sua nova tarefa montessoriana de regar as plantas uma vez por semana. (Vamos ver quanto tempo isso dura.)

Bandejas, cestas e caixas

“Já que nós protegemos as coisas das crianças para tirá-las do alcance delas, devemos deixar perto as coisas com as quais queremos que elas brinquem”, disse Davies. Ela usa caixas rasas e bandejas para exibir itens, em vez de escondê-los. Além das cestas de livros, agora temos duas caixas de lona (que usávamos para guardar coisas no armário) no chão, para alguns dos brinquedos do bebê.

Uma caixa tem quatro bolas macias, a outra alguns carrinhos de diferentes tipos e tamanhos. “Coloque só o que você estiver disposta a limpar”, disse Davies. (“Posso deixar elas vazias?”, perguntei.)

Nas prateleiras, bandejinhas de plástico (US$ 3 cada) ofereciam diferentes atividades para as crianças mais velhas: uma com blocos, uma com tesouras, papel e adesivos para artesanato, e uma cheia de borboletinhas de plástico com binóculos de brinquedo. “As bandejas deixam claro para o seu filho o que vai junto com o quê”, disse Davies.

Quando meus filhos mais velhos chegaram da escola no dia da arrumação, um foi imediatamente para a bandeja de artesanato e começou a cortar, e o outro criou uma cena de “ioga de borboleta” com a bandeja de tons inspirados na natureza.

Menos é mais

Essa talvez seja a minha lição favorita: as crianças se divertem mais quando há menos para brincar. Em vez de pegar as 300 peças do brinquedo de construir magnético que eu deixo em um saco gigante, a srta. Davies colocou cerca de 20 peças de formas variadas em uma bandeja e o resto de volta no armário.

Em vez de uma caixa de giz de cera sobre a mesa, uma dúzia deles foi colocada em um porta-copos pendurado na parede (US$ 17 por quatro fitas magnéticas, US$ 9 pelo copo magnético). Ainda que fazer o rodízio dos brinquedos disponíveis exija algum esforço, isso torna a sala de jogos mais interessante para as crianças.

Outro benefício: como elas não estão mais brincando com 100 peças minúsculas de alguma coisa, sempre há bem menos para limpar e as crianças mais velhas podem e de fato lidam com isso sozinhas. “As crianças não precisam de tanto quanto nós pensamos”, disse Davies. “Elas ficam mais criativas quando há menos.”

Davies prefere brinquedos simples, de madeira ou de aparência mais simples, e que tenham um propósito claro – rodar com carros numa pista, colocar moedas em um buraco, apertar um botão para tocar música – em lugar de brinquedos coloridos, luminosos e barulhentos que não vão fazer falta alguma para mim. Nós ficaremos felizes de doá-los em breve.

Espaços com propósito

Meu filho de 1 ano de idade se apaixonou na hora pelo cantinho reservado para ele, com um único brinquedo de criança por prateleira, ao alcance dos bracinhos dele. (A Sra. Davies tinha baixado os desenhos para ficarem à altura das crianças, mas eles tiveram de voltar para cima por causa daqueles bracinhos e mãozinhas curiosas.) Minha filha de 4 anos adorou eu ter deixado ela usar tesoura e cola à vontade, já que a bandeja desses objetos impediu a bagunça e deixou claro o que ela podia cortar e passar cola.

Eu estava um pouco cética quanto à abordagem Montessori no início, mas na prática eu consigo ver uma certa lógica nisso e estou até pensando em incluir conceitos baseados em Montessori em outras áreas. Davies sugeriu um gráfico listando a rotina matinal com palavras e imagens, para ajudar as crianças a se prepararem com menos ajuda. Uma pequena panela e vassoura na cozinha permite às crianças limpar tudo depois das refeições. Será que elas vão usá-las? Como o resto desta experiência, não custa tentar.

No fim, tirei algumas lições bastante valiosas desse experimento. Meus filhos conseguem lidar com mais do que eu acho que podem, se eu preparar eles para o sucesso. Eles não precisam de tantos brinquedos, livros e jogos quanto os comerciais, avós e choradeira deles dão a entender. Fora isso, tenho certeza de que nenhuma reforma, por maior que seja, vai redirecionar totalmente o interesse deles por telas. Pelo menos agora, na hora de dar uma pausa no tablet, há uma atividade a postos e no aguardo dessas mentes em fase de crescimento. / TRADUÇÃO DE FABRÍCIO CALADO