A cozinha que Jessica Coffee projetou bate com todas as tendências da moda: armários de cozinha americana brancos, uma parede com detalhes em ladrilhos de metrô, pisos amplos de tábuas de carvalho e uma planta de conceito aberto, com vistas para as paredes de placas de madeira na sala. As fotografias que ela postou em sua página do Instagram evocaram comentários empolgados de seguidores que observaram detalhes de alta qualidade, como o encanamento de água acima do fogão.

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A única desvantagem? Coffee, 40 anos, não pode servir uma refeição em sua cozinha. Pelo menos não de verdade, porque a sala, como o resto da casa, é construída em uma escala de 1:12. Tudo foi feito em uma casa de bonecas que fica no quarto principal da casa de verdade em Walla Walla, Washington, que inclusive não se parece em nada com a casinha incrível e pequenina.

“As pessoas sempre dizem ‘Ooh! Eu gostaria de ver sua casa de verdade. Não, você não gostaria. Eu moro em uma casa de 90 metros quadrados com três filhos e um dogue alemão”, explica ela, que vende seus desenhos em miniatura e publica tutoriais online na Jessica Cloe Miniatures. “Minha metragem da casa de bonecas é muito melhor do que a metragem real.”

Coffee é uma participante da crescente comunidade de artesãos que transformaram a arte de fazer casas de bonecas em um exercício de design de casa aspiracional pequenininha, com seus minúsculos quartos e móveis exibidos em contas bem curadas do Instagram, fotos e vídeos brilhantes na HGTV e músicas que lembram “The Fixer Upper”. Se você rolar o feed muito rápido ou deixar de ver uma foto com uma mão em escala humana surrealmente entrando em cena, pode acabar confundindo a imagem com uma cena da vida real, o tipo de coisa que impressiona e faz inveja da enorme ilha de cozinha com uma bancada em pedra sabão.

Novo renascimento

Esses fabricantes e colecionadores de casas de bonecas dizem que entramos em um renascimento da miniatura. Chame de “Mini-Aissance”. “Estamos vivendo esse renascimento exatamente agora”, diz Kate Esme Ünver, que administra miniaturas em sua página Dailymini e é autora de “O Livro do Mini: Por Dentro do Grande Mundo das Coisas Minúsculas”, lançado em 2019.

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As redes sociais transformaram o que antes era um hobby de nicho em um negócio decididamente na moda e cada vez mais lucrativo, facilitando encontros online entre artesãos e potenciais clientes. A hashtag do Instagram #dollhouse tem 1,65 milhão de postagens e #miniature quase 4,3 milhões, uma mistura de postagens de pessoas que fazem miniaturas e as que compartilham o que encontraram. Rendas da época vitoriana e armários antigos estão sendo trocados por cadeiras modernas de meados do século, plantas de figo com folhas de lira e lustres sputnik. A House Beautiful tomou conhecimento disso e contratou 11 designers de interiores para reimaginar uma casa de bonecas vitoriana em seu próprio estilo, leiloando os produtos acabados decididamente contemporâneos no New York Design Center, no último 27 de fevereiro.

Nos últimos seis meses, as pesquisas no Etsy por móveis em escala 1:12 aumentaram 39% e as pesquisas por tapetes e artigos em miniatura aumentaram 20% em relação ao mesmo período do ano anterior. Uma busca no site por casas de bonecas produz 237.000 resultados. “É certamente uma tendência que está subindo”, afirma Dayna Isom Johnson, especialista em tendências do Etsy. Os itens populares – suculentas em miniatura, sais de banho, arte com palavras – apontam para um interesse dos adultos, não de seus filhos. “Talvez haja crianças de 10 anos muito sofisticadas por aí que querem um sofá do meio do século, mas presumo que sejam adultos que queiram assumir isso como um novo hobby.”

Chris Toledo, 34 anos, que mostra suas criações diminutas na conta do Instagram I Build Small Things, viu seu negócio disparar nos últimos dois anos graças às mídias sociais. Ele agora vende suas casas de bonecas, projetadas em homenagem à arquitetura de 1920 de Los Angeles, onde vive, por US $ 150.000 a US $ 200.000 cada. “Antes, as miniaturas eram divulgadas apenas em revistas especializadas. As redes sociais colocam isso na cara de todo mundo.” Suas casas possuem ambientes intricadamente detalhados, como uma cozinha com um painel traseiro de ladrilhos de metrô e uma luz pendente que pareceria de verdade, não fosse pela cabeça de alho em tamanho real posicionada no meio.

Pinça e impressora 3D

Enquanto alguns artesãos se especializam em móveis e decoração, Toledo se concentra na arquitetura, vendendo casas de boneca completas e quartos individuais – como um banheiro em um quadro de vidro – por até US $ 20.000. Ele projeta os ambientes à mão, usando molduras e ferramentas em miniatura, como uma serra, para trabalhos de carpintaria. O advento das impressoras 3D também abriu as portas para pessoas sem essas habilidades avançadas com madeira – para a decepção dos fabricantes tradicionais de casas de bonecas, que veem essa tecnologia como um tabu. Coffee, por exemplo, usa uma impressora 3D para fazer objetos menores, como abóboras decorativas, que ela vende por US $ 5. Ela fabrica outros itens, como almofadas, usando materiais e ferramentas do dia a dia, como cola, tecido, pinça e colchas.

Depois de um ano em seu ofício, Coffee agora vende em seu site pisos de espinha de peixe e tapetes de couro feitos com impressão digital a fim de obter lucro, embora ainda não seja suficiente para desistir de seu trabalho diário como designer gráfica. Ela também usa as casas de bonecas para resolver desafios de design nas casas da vida real que ela e o marido reformam. Se ela não tiver certeza da cor do piso ou do padrão de um tapete, poderá experimentá-lo em pequena escala por alguns dólares. Sua casa atual tem o mesmo piso rústico de tábuas largas que suas casas de bonecas.

Embora as miniaturas tenham entusiastas, esta nova geração de fabricantes de casas de bonecas está se voltando para imóveis contemporâneos idealizados, numa época em que a versão real está cada vez mais fora do alcance de muitos americanos. Os altos preços dos imóveis e os salários estagnados tornam difícil para muitos proprietários considerarem uma cozinha de US $ 100.000 com uma pia de fazenda e um fogão Wolf. Mas você pode ter uma pequena – ou três delas, e enchê-las com pequenas máquinas de café expresso, tábuas de queijo e garrafas de Dom Pérignon. Gosta da ideia de uma porta de celeiro, mas não tem um local para instalar uma? Coloque-a no sótão da casa de bonecas e, se ficar cansativo, decore a sala inteira com cadeiras de vime, um tapete felpudo e uma paleta rosa suave.

Kwandaa Roberts, médica na Filadélfia, diz que encontrou seguidoras em sua conta do Instagram, Tiny House Calls, entre millennials que buscam uma casa mais bonita. “Elas não têm dinheiro, muitas não podem comprar um imóvel e estão morando na casa dos pais ou em um pequeno apartamento com colegas de quarto. Não podem pensar em design e todas as coisas que desejam”, conta. “Mas, como eu, elas podem gastar muita energia criativa em uma casa de bonecas.”

Roberts, 47 anos, mãe solteira de dois filhos, iniciou seu hobby há dois anos quando comprou uma casa de bonecas na Target. Ela pretendia entregá-la à filha, agora com 5 anos, mas descobriu que isso preenchia um desejo criativo de ser designer de interiores. Ela pintou, adicionou papel de parede e detalhes como uma banheira de imersão de latão, uma cozinha com uma bancada com cascata e fez móveis à mão com suprimentos que comprou na Michaels. “Eu sempre amei o design de interiores, tinha uma paixão enorme por isso e podia ter entrado nessa carreira se soubesse que isso era uma profissão.” Mas quando ela estava crescendo, “não havia HGTV. A Home Depot vendia madeira serrada; não era o que é hoje. ”

Em suas pequenas casas, a Dra. Roberts encontrou uma saída e uma oportunidade de revelar seus projetos em vídeos e fotos que ela compartilha com seus 47.000 seguidores. “Não preciso refazer minha casa, eu posso ter 10.000 cozinhas e elas serão fantásticas.”