Danielle Ward estava no Hamptons com sua família neste verão, quando recebeu uma mensagem do seu sistema de segurança doméstica em Maplewood, Nova York, a três horas de distância. Alguém havia aberto a porta da frente. Danielle e seu marido, Patrick, entraram em pânico e passaram meia hora grudados no telefone investigando as imagens das câmeras, até encontrarem uma foto do passeador de cães saindo de casa com o animal de estimação da família. Ele só tinha vindo em um momento meio inesperado. Aturdidos pela distração, os dois tiveram dificuldades em voltar para onde realmente estavam: na praia, nas férias, relaxando ostensivamente. Os alertas telefônicos oferecem “tranquilidade de que o cão está bem”, segundo Danielle, que trabalha em relações públicas. “Mas o bombardeio quando você está de férias é realmente perturbador.”

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A tecnologia inteligente tornou mais fácil rastrear nossas casas de longe. Em vez de trancar as portas, acender a luz da varanda e deixar uma chave com o vizinho, os proprietários usam um exército de aplicativos que enviam atualizações em tempo real para o celular. Se você quer saber quando, ou se, a babá chegou, uma câmera Abode bem posicionada pode enviar um videoclipe. Sentindo falta do cachorro? Converse com ele e distribua guloseimas com uma câmera de vídeo como PetChatz, que também permite que um animal de estimação solitário ligue para você. Sensores de água como Wally alertam sobre vazamentos ou até muita umidade. E para o proprietário preocupado com o congelamento da tubulação no inverno rigoroso, um termostato inteligente como o Nest oferece a opção de estar na temperatura de Nantucket ou do Caribe.

Esse monte de informação deveria ajudar a reduzir a pavor dos proprietários de se afastar do que pode ser seu maior patrimônio. Mas, na era das constantes interrupções do trabalho, das mídias sociais e das notícias, um aviso da câmera da campainha dizendo que a correspondência foi entregue só faz aumentar o já excessivo número de alertas. Os americanos checam seus telefones em média 80 vezes por dia durante as férias, cerca de uma vez a cada 12 minutos, de acordo com uma pesquisa de 2018 da Asurion, uma empresa de seguros e garantia de dispositivos. Mas se o objetivo das férias é interromper as responsabilidades da vida, uma enxurrada de alertas sobre entregas de pacotes dificilmente ajuda.

“Todas essas coisas nos afastam de nós mesmos, das pessoas próximas e nos colocam em um mundo em que estamos nos conectando com o nosso sistema de aquecimento doméstico e não com a pessoa do outro lado da mesa”, reflete Sherry Turkle, professora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e autora de “Recuperando a conversa: o poder do diálogo na era digital”. Em um momento em que sentimos ter pouco controle sobre os eventos à nossa volta, as ferramentas do celular podem oferecer clareza e ordem: o porão está seco, a luz da varanda acendeu ao anoitecer e a única coisa que se move no quintal é o mesmo gato de rua que sempre aciona a câmera de detecção de movimento. Mas toda essa informação, por mais tranquilizadora que seja, também nos nega a chance de abandonar o controle das tarefas pouco inspiradoras que consomem nossa vida cotidiana.

Distrair do descanso

Ao contrário de outras interrupções, como as de um chefe no trabalho que se intromete apesar de nossos esforços, os alertas de uma casa inteligente são interrupções de nossa própria autoria. Compramos o equipamento e configuramos o celular para distribuir lembretes constantes de que as responsabilidades continuam em outros lugares, mesmo que estejamos na praia. Em vez de pedir a um vizinho para dar uma olhadinha na casa enquanto estamos fora, como fazíamos uma década atrás, levamos o fardo conosco. “Trata-se de um novo vínculo com sua casa, seu inventário e sua ansiedade”, diz Turkle. “Isso não permite que você se desligue nunca.”

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Turistas ficaram tão distraídos que os hotéis estão adicionando tempo de inatividade digital aos seus pacotes de comodidade. Nos hotéis Grand Velas, no México, os hóspedes podem solicitar um serviço de desintoxicação digital, que limpa o quarto de televisões e dispositivos, substituindo as telas por jogos de tabuleiro. No ano passado, a Wyndham Hotels and Resorts lançou um programa piloto em cinco locais, criando zonas livres de dispositivos nas piscinas e restaurantes, em resposta a reclamações da gerência do hotel de que os hóspedes estavam grudados demais em suas telas. Em Orlando, os hóspedes passavam tanto tempo no celular em vez da piscina, que a gerência precisou pedir mais espreguiçadeiras, segundo Gabriella Chiera, porta-voz de Wyndham.

Às vezes, é claro, queremos fazer check-in na casa. Em fevereiro, Bailey Kindlon saiu de férias e foi sozinha para Palm Springs, comemorar seu aniversário de 40 anos, deixando seu marido, Eric Johnson, em casa com seus três filhos pequenos pela primeira vez. Todas as manhãs ela verificava os monitores de bebê em South Orange, Nova York. “Eu ficava vendo todos dormirem e checando como estava o clima na casa”, diz Kindlon, que trabalha em um estúdio de design e branding. “Eu não conseguia relaxar a menos que soubesse que ele tinha tudo sob controle.” A espionagem casual não era apenas sobre as crianças. Também era um remédio para as saudades de casa. “Eu senti falta do som da risada deles. Era uma maneira de observar as pequenas coisas das quais eu sentia falta.”

Talvez nossos dispositivos inteligentes não sejam inteligentes o suficiente. Eles sabem como nos enviar alertas, mas uma câmera de detecção de movimento não sabe a diferença entre a FedEx e um ladrão à espreita do lado de fora da sua porta. “A casa realmente inteligente saberia o suficiente para não notificá-lo durante o horário em que você estiver na praia no México”, afirma William Powers, autor de “Blackberry da Hamlet: construindo uma boa vida na era digital”. Em vez disso, saberia esperar um momento mais apropriado para interromper, como quando você está descansando no hotel. Mas “ainda há um longo caminho a percorrer”, diz Powers, antes que a tecnologia de inteligência artificial chegue a esse ponto.

Para Danielle, o episódio de Hamptons foi a gota d’água. Viagens anteriores, incluindo uma em que foi com o marido para Paris na primavera, também foram interrompidas por alertas irrelevantes de casa. Agora, o casal decidiu desacelerar o envio de informações. Em férias futuras, eles desabilitarão aplicativos não essenciais, reduzirão os alertas do sistema de segurança e dependerão dos vizinhos para atualizações. “Todo mundo está falando comigo. A casa está falando comigo. O carro, a escola, o trabalho. Aonde isso vai parar? Não sei qual é a resposta, mas definitivamente precisamos descobrir um sistema melhor para quando estivermos de férias.” / TRADUÇÃO DE ELENA MENDONÇA