Apesar do reajuste da Selic para 4,25% ao ano na última reunião do Copom (16/junho), o percentual ainda é baixo se comparado ao patamar de 14,25% — praticado entre 2015 e 2016 – e volta a registrar o mesmo índice de fevereiro de 2020, antes da pandemia. “Esse aumento de juros é muito pequeno perto do que a gente tem como linhas do crédito imobiliário. E mesmo que no futuro tenhamos outros aumentos, ainda há espaço para se manter as linhas atuais”, avalia o vice-presidente de Habitação Econômica do Secovi-SP, Rodrigo Luna.


A alta coincide com o anúncio da Caixa Econômica Federal de que a concessão de crédito imobiliário cresceu 41,4% entre janeiro e maio deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado. Só nos 5 primeiros meses de 2021 foram R$ 52,4 bilhões concedidos, o que significa 240,6 mil novos contratos. A própria Caixa anunciou, em fevereiro, uma nova modalidade de financiamento corrigido pelo rendimento da poupança, mais uma taxa fixa que varia de 3,35% a 3,99% ao ano (a depender do perfil do cliente), mais a Taxa Referencial (TR) – que atualmente está zerada. A novidade está disponível desde março e a contratação da linha de crédito pode ser feita para compra de imóveis novos e usados, construção e reforma.

O lançamento provocou as instituições privadas a abrirem novas possibilidades também, popularizando ainda mais o financiamento imobiliário quando o mercado já estava aquecido pelos residenciais. O resultado veio rápido. Levantamento da proptech Homer, plataforma de soluções tecnológicas para corretores de imóveis, mostra que 46% dos profissionais fizeram novos negócios mesmo em meio à pandemia (entre março/2020 e março/2021). 63% deles notaram crescimento nas vendas. E as expectativas em relação às negociações até o final deste ano seguem positivas. A maior parte dos compradores, 52%, está disposta a investir de R$250 mil a R$600 mil na compra de um imóvel. 27% consideram pagar de R$600 mil a R$900 mil.

“Desde que a pandemia começou, vemos mais investidores comprando imóveis que não tem a ver com o seu próprio perfil de consumo, mas que estão adquirindo pensando na renda. Isso mostra que o mercado ainda está muito positivo e deve seguir assim no pós-pandemia também”, comenta Livia Rigueiral, Cofundadora e CEO da Homer. Ainda segundo ela, mesmo para quem aluga o mercado tem garantido oportunidades, flexionando o reajuste para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em vez de usar o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), que já acumula alta de 37% nos últimos 12 meses.

“É claro que o mercado imobiliário foi afetado pela pandemia. Tivemos perda de renda na sociedade brasileira, aumento do desemprego, grande número de atividades econômicas sofrendo muito. Em contrapartida, tivemos a requalificação da importância do imóvel na vida das pessoas, somada ao déficit habitacional crescente e ao crédito farto. Isso mostra que é um mercado pujante”, reflete Luna. “E, hoje, uma família só tem a segurança estando na sua casa de forma protegida. Por isso tivemos um ano de crescimento, a despeito de toda dificuldade que estamos atravessando”, complementa.

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Rodrigo Luna: tendência do mercado é a adaptação/ Crédito: Márcio Bruno

Mas… e quanto aos imóveis comerciais?

“A gente ainda está vendo uma oferta muito grande e uma procura muito baixa. Mesmo os investidores propensos ao risco estão reticentes tentando entender o que vai acontecer no pós-pandemia”, afirma Livia Rigueiral. Para ela, muitas empresas devem adotar um modelo híbrido buscando um equilíbrio entre a convivência dos funcionários que fortalece vínculos de equipe e o distanciamento que pode ser conveniente e econômico. Mas esse movimento deve aparecer somente depois da vacinação da maior parte da população brasileira.

A fim de antecipar as tendências por aqui, é possível verificar o que está acontecendo nos EUA. Em Manhattan – o bairro mais badalado de Nova York – os preços dos aluguéis comerciais caíram tanto que comerciantes antes quebrados pela pandemia agora estão expandindo seus negócios e podem pechinchar imóveis em áreas nobres. Além disso, escritórios estão sendo redimensionados para tamanhos mais enxutos. No sistema híbrido, o rodízio de funcionários enxuga a estrutura das empresas, mas não as extingue.

Para Luna, ainda é difícil prever como o mercado brasileiro deve se comportar no pós-pandemia, mas a tendência é a adaptação às novas circunstâncias. “Estamos muito otimistas de que teremos um segundo semestre forte e toda essa demanda reprimida abre espaço para 2022 ser um ano muito bom.” Ele destaca ainda que, apesar da imprevisibilidade política, a demanda deve aumentar e o Brasil viverá dois anos de forte crescimento, experimentando o setor imobiliário em intensa transformação.

“Eu acho que é uma grande aposta para o investidor oportunista, a depender do perfil. Para quem é mais arrojado, realmente é a hora, porque os preços baixaram e os proprietários estão com a corda no pescoço. Neste momento, os residenciais formam 85% da preferência dos compradores. 60% dos corretores apostam em uma alta de até 50% na venda de imóveis em 2021”, conclui Livia.

Livia Rigueiral: para o investidor arrojado, agora é a hora certa/ Crédito: Divulgação Homer