Não conheço muitos dos meus vizinhos, mas sou capaz de contar um bocado sobre o que acontece na porta deles. Posso dar uma amostra de alguns eventos recentes que acompanhei por meio das imagens granuladas das câmeras de segurança: um esquilo empreendedor destruiu uma abóbora; um homem de camisa xadrez vermelha ajeitou vergonhosamente as folhas na entrada de carros do vizinho; e, na minha hora de dormir, numa noite dessas, um adolescente tocou a campainha de alguém e saiu correndo.

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Assisti a tudo isso em loopings de 30 segundos em vídeos enviados pelo Neighbours, o aplicativo da Ring, uma marca de câmeras de detecção de movimento e campainhas filmadoras pertencentes à Amazon. Mas você não precisa ter uma Ring para checar a vizinhança. Basta digitar seu endereço e pronto, aparecerá o mapa de um raio de oito quilômetros a partir da sua casa, repleto de tags como “suspeito”, “crime” e “visitante desconhecido”. Clique em um e você terá a vista de uma super grande angular da varanda, garagem ou janela do segundo andar, postada por alguém com vontade de compartilhar.

A filmagem, publicada anonimamente, é sempre acompanhada de uma manchete e legenda. “Toque e corra”, dizia a postagem de um adolescente com um capuz pulando nos degraus da frente de uma casa depois de tocar a campainha. “Ei, garoto, você está invadindo uma propriedade e são 22h. Já não passou da sua hora de dormir?” Comentários de outros usuários do Neighbours adivinharam a idade da campainha e discutiram se dez horas da noite é realmente hora de dormir. Alguns relembraram suas próprias travessuras adolescentes, para desgosto do proprietário furioso que postou as imagens, alimentando um debate inevitavelmente sarcástico sobre o que constitui um mau comportamento.

Outros aplicativos oferecem serviços semelhantes, como o Citizen, que é basicamente um relógio de crime itinerante, e o Nextdoor, um fórum online para pedir recomendações de encanador, postar uma foto de um gato perdido ou enviar um vídeo de um homem sacudindo a maçaneta da porta do seu carro às três da manhã. Escolha sua. Todo esse aperto de mão online ocorre em um momento em que é menos provável que conheçamos as pessoas que moram ao nosso redor. Um relatório de 2015 do City Observatory, um think tank virtual, descobriu que quase um terço dos americanos não tinha interação com seus vizinhos e apenas cerca de 20% relataram passar tempo com eles regularmente. Quarenta anos atrás, esses números eram o inverso, com quase 30% dos americanos relatando visitar vizinhos pelo menos duas vezes por semana, e cerca de 20% sem interagir com eles.

Especialistas apontam para algumas tendências importantes. Os americanos trabalham mais horas e têm viagens mais longas, então é difícil sequer encontrar casualmente as pessoas que moram ao redor. Também passamos mais tempo interagindo nas mídias sociais. “Como fazemos grande parte de nossa comunicação em nossos dispositivos, pode ser que tenhamos perdido um pouco da nossa habilidade e do conforto em nos comunicar pessoalmente”, reflete Bella DePaulo, autora de “How We Live Now”.

Em vez disso, enviamos vídeos e, em seguida, lamentamos virtualmente os piratas na varanda, possíveis piratas na varanda ou um entregador demorando muito tempo na porta. As câmeras geralmente capturam o que está acontecendo na calçada ou em uma propriedade próxima. Assim, seus vizinhos podem nunca dizer olá, mas filmar você tirando o lixo, passeando com o cachorro ou optando descaradamente por não recolher o cocô, e compartilhar o registro.

Seguro e irritante

Existe um risco para toda a espionagem e publicação. “Se você tem uma sociedade em que todos sabem que estão espionando um ao outro, isso pode minar o capital social do bairro”, explica Jay Van Bavel, diretor do Laboratório de Avaliação e Percepção Social da Universidade de Nova York. Instalei alguns desses aplicativos há algumas semanas, curiosa para ver como era meu bairro a partir dessa perspectiva. Com intervalos de poucas horas, meu telefone apitava com alertas falando sobre tentativas de roubo de carros, policiais perseguindo suspeitos e alguém que precisava de um pedreiro para cuidar do banheiro.

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Scott Sokol, 34 anos, morador de Montclair, Nova York, vive com sua esposa e duas filhas pequenas. Ele comprou uma campainha da Ring no verão, quando a Amazon estava vendendo com desconto. Graças à filmagem da campainha, ele agora recebe alertas no telefone quando a babá chega em casa com as crianças, deixando-o mais à vontade para estar longe enquanto trabalha. Ainda assim, ele acha o aplicativo Neighbours desconcertante. “É uma coleção estranha de informações”, conta ele. “Na maior parte das vezes que recebo um alerta do aplicativo, é sobre algo que aconteceu numa cidade vizinha ou a cinco quilômetros de distância, tipo a porta do carro de alguém que foi aberta em Cedar Grove. É irritante.”

A Ring insiste em tentar manter os alertas do Neighbours no mínimo. “Nosso aplicativo deve ser de baixa frequência e alta relevância”, afirma Che’von Lewis, porta-voz da Ring. Apesar disso, essas ferramentas são populares. Na quarta-feira, o Nextdoor era o quarto aplicativo gratuito mais popular na categoria de notícias da Apple App Store. E o Citizen estava em sexto lugar. O Neighbours ficou em 38º lugar na categoria de redes sociais. Ou seja, há material suficiente para que a conta do Twitter @bestofnextdoor tenha conquistado quase 300.000 seguidores compartilhando postagens particularmente absurdas, como um aviso aos vizinhos para desconfiarem de doces ou travessuras adolescentes, porque eles podem realmente ser criminosos se passando por crianças.

Todos esses dados compõem uma imagem distorcida das áreas em que vivemos. Nos EUA, as taxas de crime vêm caindo. Em 2018, os ataques à propriedade privada caíram 6,3% em relação ao ano anterior e quase 28% em relação a 2009, de acordo com o Federal Bureau of Investigation. No entanto, se entrar no Citizen ou no Neighbors você pode pensar que está no meio de uma onda de atentados. “Precisamos ser alfabetizados em dados e não somos”, explica Pamela Rutledge, psicóloga de mídia da Fielding Graduate University, em Santa Barbara, na Califórnia, e diretora do Media Psychology Research Center, uma organização sem fins lucrativos. “Precisamos saber o que estamos vendo e o que isso significa.”

Podemos não entender os dados, mas nossa sede parece ilimitada

Agora, por US $ 2.000 por ano, um proprietário preocupado pode comprar o serviço de uma empresa que afixará uma câmera em um poste e a apontará para a rua para capturar fotos das placas de cada carro que circula por duas faixas de tráfego a até 30 metros de distância. Duas câmeras, uma posicionada em cada extremidade do quarteirão, poderiam capturar todos os carros indo e vindo pela rua. A empresa, Flock Safety pode visualizar ou acessar as imagens com o consentimento dos proprietários. As câmeras flock estão em 400 cidades, em 36 Estados, e metade de seus clientes são associações civis.

A ideia por trás da câmera é que, se alguém rouba uma bicicleta ou entra em uma casa, a polícia pode rever as imagens procurando veículos suspeitos. Embora a Ring tenha feito parceria com 405 agências policiais em todo o país, potencialmente fornecendo acesso a feeds de vídeo de proprietários, a Flock alerta autoridades se uma câmera detectar um veículo com uma placa no banco de dados do Centro Nacional de Informação Criminal do FBI. “Esse é um estado de vigilância? Não achamos que sim”, disse Garrett Langley, executivo-chefe da Flock Safety.

Em algum momento você deve se perguntar quantas câmeras realmente precisamos e o quanto vale a pena assistir às filmagens. Robin Guarino, que mora há 20 anos na sua casa em West Orange, Nova York, não se importa que muitos de seus vizinhos tenham instalado campainhas para filmagem. Ela vê o benefício: uma câmera pode deter um pirata na varanda. Recentemente, porém, um casal se mudou para uma casa na esquina e colocou pequenas câmeras na lateral da varanda, de frente para a rua. Isso chamou sua atenção. “É um pouco assustador”, diz ela. “O que eles vão capturar? Nada acontece neste bairro.” / TRADUÇÃO DE ELENA MENDONÇA