A alta da taxa básica de juros e da inflação tem estimulado o interesse dos investidores pelos títulos de dívida (emissões de certificados) que carregam isenção de Imposto de Renda sobre os ganhos.

O volume de ofertas de certificados de recebíveis do agronegócio (CRAs) e imobiliário (CRIs) emitidos por empresas somou R$ 12,3 bilhões entre janeiro e março deste ano, montante 56% superior ao do mesmo período de 2021, de acordo com dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). Outros R$ 7 bilhões estão em análise na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

“O cenário de alta forte de juro fez o investidor buscar a renda fixa e, não só a demanda dos gestores cresceu por vários papéis emitidos pelas empresas, mas também o número de pessoas físicas investindo diretamente em produtos incentivados também aumentou”, afirma o responsável pelo mercado de dívida do Bradesco BBI, Rafael Garcia. 

Os fundos de renda fixa tiveram captação líquida de R$ 46 bilhões no primeiro trimestre, segundo a Anbima.

Isenção de imposto de renda é atrativo para investidor

O que mais tem atraído os investidores para esses produtos incentivados é o ganho proporcionado pela isenção num momento em que a taxa Selic está mais alta. Existe uma grande diferença entre o ganho proporcionado pela isenção de IR, que varia de 22,5% a 15% para as debêntures, por exemplo, com a Selic a 2%, nível que chegou em 2020, e acima de 12%, como está agora, observa o diretor de renda fixa e produtos estruturados do Itaú BBA, Felipe Wilberg. 

“Os incentivados vão ganhando espaço, porque para a pessoa física é melhor do que direcionar recursos para fundos, que têm taxa de administração”, diz Wilberg.

Diante da maior demanda, as empresas têm buscado os CRIs e CRAs para captar, uma vez que as debêntures de infraestrutura, que também isentam o investidor, só são elegíveis à captações que tenham os recursos direcionados a projetos de infraestrutura. 

Já para emitir os CRIs, os recursos levantados devem ser usados para investimentos em “tijolo”, inclusive que já tenham sido feitos. No caso dos CRAs, a mesma coisa, só que o foco de uso dos recursos são para investimentos em tenham relação com a cadeia do agronegócio.

Rede D’Or, Madero e Havan fez emissões de certificados títulos

Alguns exemplos recentes são uma captação de até R$ 1,2 bilhão da Rede D’Or em andamento, para construção de hospitais. A rede de restaurantes Madero levantou R$ 500 milhões com CRAs para quitar dívidas, e os recebíveis estão lastreados na cadeia agropecuária. Outra empresa que usou o instrumento foi a varejista Havan, que captou R$ 500 milhões com CRI, usando os recebíveis do aluguel de suas lojas como lastro.

A procura elevada faz com que o prêmio exigido pelo investidor caia, reduzindo, portanto, o custo da operação. No caso das emissões de certificados com títulos incentivados, esse custo fica ainda menor porque normalmente o emissor “divide” esse ganho que o investidor terá com a isenção do imposto quando lança o preço do papel. Ainda assim, o retorno para o investidor tem superado o de outros papéis de crédito privado, como uma debênture simples, entre 30 pontos-base a 50 pontos-base.

Eleições anteciparam captações

Tem chamado a atenção também o tamanho das ofertas, de até a R$ 1,5 bilhão, o que não era comum entre esses instrumentos. Wilberg afirma que, individualmente, os montantes emitidos por meio de CRIs e CRAs aumentaram em razão da antecipação de captações por conta das eleições presidenciais no segundo semestre e da inflação, que elevou a necessidade financeira das companhias.

Para Garcia, do Bradesco BBI, as eleições não devem, entretanto, atrapalhar o fluxo das emissões. “Com o juro no atual patamar e o fluxo de entrada de recursos nos fundos positivo, sugerem que as captações com instrumentos de renda fixa seguirão vantajosos para as empresas”, afirma. Garcia nota que algum gargalo pode haver na oferta, dado que muitas empresas já acessaram o mercado e podem buscar entender o ritmo de suas necessidades antes de novas ofertas.


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