[OPINIÃO] Incorporar não se aprende em um fim de semana
Elisa Rosenthal é diretora-presidente do Instituto Mulheres no Imobiliário
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Certa vez, ao explicar para minha mãe sobre minhas atividades profissionais, mencionei incorporação e o rosto dela mudou. “Incorpora o quê?”
Para quem não é do setor, o termo pode soar esquisito. Busquei uma forma lúdica: “É tudo que existe antes de um prédio existir. A parte invisível.” Ela acenou com a cabeça, mais por gentileza do que por convicção.
Essa dificuldade talvez explique por que tanta gente acredita que incorporar é simples. Mas a incorporação carrega toda a responsabilidade do que será construído e do que aquela construção fará com a cidade.
Nos últimos anos, proliferaram cursos prometendo ensinar como incorporar em lições práticas e em curto espaço de tempo. E alto lucro, rápido.
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Recentemente, passei quase duas horas e meia conversando com uma incorporadora que atua em Belém e acaba de chegar a São Paulo. Discutimos um único produto com suas variáveis, seus riscos, suas decisões. Ao final, observamos que tínhamos dedicado mais tempo a entender um projeto do que muita gente investe para conhecer o mercado inteiro.
A incorporação é uma das atividades mais complexas da economia real: ciclos longos, capital intensivo, riscos regulatórios e macroeconômicos, cadeia produtiva extensa.
Em 2024, a construção civil registrou PIB setorial de R$ 359,5 bilhões e empregou 2,86 milhões de pessoas, segundo o IBGE.
As variáveis que ignoram
– Em São Paulo, a escassez obriga muitas incorporadoras a realizar junções: aquisição de imóveis contíguos para unificá-los em uma única área edificável. Cada negociação carrega sua história. São famílias com interesses distintos, espólios, herdeiros dispersos. Soma-se uma parcela considerável de imóveis com documentação irregular, que exige due diligence criteriosa.
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– A Lei de Uso e Ocupação do Solo define o que pode ser construído em cada endereço e ignorar seus parâmetros, além de inviabilizar projetos antes mesmo de saírem do papel, pode comprometer todo o setor.
– Na aquisição, além do pagamento à vista (cada vez mais raro), entra a permuta: física, com unidades futuras, ou financeira, com fluxo atrelado às vendas. Cada modalidade com implicações jurídicas e tributárias distintas, além de cláusulas resolutivas para saídas não onerosas em caso de inviabilidade.
– O custo de obra. Oscilações em aço, cimento e mão de obra impactam diretamente os resultados. Adotar novas práticas enfrenta barreiras simultâneas: execução, mão de obra qualificada, oferta de insumos e aceitação do consumidor.
– A estratégia comercial. A precificação depende de renda, crédito, concorrência e dinâmica urbana. Vender na planta exige mais que produto e preço. É necessário o treinamento de equipes, alinhamento com imobiliárias e corretores que dominem produto, crédito e argumentação técnica. Quem acredita que as redes sociais substituem essa estrutura aprende rápido que não é assim.
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– Projetos podem durar mais de cinco anos. Nesse período, juros, inflação de custos, mudanças políticas e instabilidade fiscal podem mudar radicalmente. A PDG Realty, que chegou a ser a maior incorporadora do País, entrou em recuperação judicial em 2017 com passivo superior a R$ 5,3 bilhões junto a mais de 22 mil credores. A Rossi seguiu caminho semelhante. Apenas para citar dois exemplos mais conhecidos.
Crescer sem governança pode ser fatal, e quando uma incorporação falha, a cidade paga a conta: obras paralisadas geram degradação urbana, insegurança para compradores e perda de confiança no mercado.
O crescimento do interesse pelo setor é positivo. O país precisa de novos projetos e soluções urbanas. Mas tratar essa atividade como atalho para ganhos rápidos gera expectativas irreais e decisões irresponsáveis.
Empresas que atravessam diferentes ciclos têm em comum governança, gestão de risco e disciplina financeira. Acima de tudo, têm tempo de aprendizado. A incorporação imobiliária não é apenas um negócio. É uma atividade que molda cidades. E cidades não se constroem em um final de semana.
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