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Felicidade e bem-estar são temas de congresso sobre arquitetura em Curitiba

Evento reuniu 200 profissionais da construção civil para discutir como novos empreendimentos urbanos podem promover saúde física e psíquica

  • (5.0)

Camila Caringe

13/11/2019 - 6 minutos de leitura


Photo by Sharon McCutcheon from Pexels

Em 2019, o Ranking Connected Smart Cities, estudo desenvolvido pela Urban Systems, colocou Curitiba em primeiro lugar na avaliação sobre urbanismo, que verifica itens como Plano Diretor Estratégico, uso e ocupação do solo, transporte de massa e infraestrutura. Verificou-se que, no período, a cidade apresentou 100% de atendimento urbano de água e 100% de atendimento urbano de esgoto. Além disso, houve investimento de R$ 602,6 por habitante em urbanismo.

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Sede do Congresso Internacional da Felicidade anualmente, a cidade foi eleita também para abrigar o primeiro Congresso Brasileiro de Arquitetura da Felicidade, que ocorreu no dia 4 de novembro, para discutir, entre outras coisas, como o mercado imobiliário pode atender à demanda por bem-estar e qualidade de vida em espaços internos e externos, privativos e coletivos no ambiente urbano. “Curitiba está postulando ser a cidade da felicidade. Realiza um congresso internacional da felicidade, tem o festival da felicidade e até um bairro: o Santa Felicidade”, explica Guilherme Takeda, arquiteto e paisagista.

“Fizemos um congresso para nos unirmos a esse movimento.” Takeda é professor de neuroarquitetura na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e tem especialização em psicologia positiva. “Quero reunir o maior numero de especialistas, pesquisadores, arquitetos, empresários e técnicos que tenham este mesmo objetivo: criar ambientes que incentivem sensações e emoções positivas nos usuários.” Mas, antes, é necessário entender o que é a felicidade e quais as condições para que ela ocorra.

Guilherme Takeda / Crédito: Denysson Sales

Bem-estar e satisfação

Para Sonja Lyubomirsky, professora norte-americana no Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia, a felicidade pode ser definida como “a experiência de alegria, contentamento ou bem-estar positivo, combinada com a sensação de que a vida é boa, significativa e vale a pena”. Mas talvez os brasileiros não tenham encontrado esse caminho. Dados da International Stress Management Association (ISMA) informam que o Brasil é o segundo país mais estressado do mundo, ficando atrás apenas do Japão. Além disso, 9 entre 10 brasileiros apresentam sintomas de ansiedade.

“Precisamos encontrar esse décimo cara e perguntar por que ele não está estressado. Precisamos estudar o que está dando certo no ser humano”, destaca Gustavo Arns, estudioso da psicologia positiva e fundador do Congresso Internacional da Felicidade. “Sabendo que os relacionamentos são tão importantes para construir a felicidade, precisamos saber como é que a arquitetura pode então contribuir, como criamos ambientes que favoreçam o desenvolvimento de bons relacionamentos em casa, nos condomínios, nos prédios, nas cidades.”

O pesquisador menciona o estudo mais longo da Universidade de Harvard, que avaliou justamente a felicidade dos indivíduos. A pesquisa envolveu 268 alunos da instituição e 452 meninos de 12 a 16 anos que cresciam na cidade de Boston. Sem saber como conduziriam sua trajetória pessoal, os cientistas avaliaram aspectos pessoais ano após ano e perceberam que os indivíduos mais felizes eram aqueles comprometidos com relacionamentos mais significativos ao longo da vida.

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Biofilia: a natureza para dentro

“Biofilia” é um termo em português que une as palavras gregas “bios”, vida, e “philia”, amor. A biofilia é então o amor pela vida e, por extensão, o amor pela natureza. Na arquitetura, o conceito é aplicado no sentido de reconectar o homem ao espaço natural. Se antes o ser humano vivia em íntimo contato com o meio ambiente, agora, nas rotinas urbanas, chega a passar até 90% do tempo confinado em ambientes construídos. “Antigamente, nossa arquitetura usava átrios, jardins, lagos, fontes, motivos de plantas e animais e isso nos deixava próximos à natureza. Aproveitávamos a ventilação e a iluminação natural. Com a incorporação da eletricidade, há cerca de 140 anos, isso mudou. Passamos a vedar cada vez mais as nossas edificações e os espaços internos ficaram cada vez mais desconectados do exterior”, destaca Bia Rafaelli Casaccia, arquiteta especialista em design biofílico.

Bia Rafaelli Casaccia / Crédito: Denysson Sales

Ela lembra que pesquisa divulgada em 2019 pela Universidade de Aarhus, na Dinamarca, observou quase um milhão de dinamarqueses entre 1985 e 2013, avaliando 16 transtornos mentais. Os estudos comprovaram que crescer em contato com a natureza, com brincadeiras ao ar livre, significa 55% menos risco de desenvolver transtornos mentais na fase adulta. “Nosso mundo construído, esse nosso novo habitat, é muito recente na história da evolução. E o nosso corpo, a nossa mente, foram moldados para movimentos na natureza. Tendo em vista essa nossa conexão inata, instintiva com a natureza, porque aceitamos ambientes que nos desconectam? E se isso pudesse ser diferente?”, provoca Bia. “66% dos países desenvolvidos serão urbanizados até 2050. Isso pode nos afastar mais ainda da natureza. Mas, compreendendo de uma forma científica todos os benefícios do contato com o meio ambiente é que surge o conceito do design biofílico.”

Foi pensando nisso que Michelle Beber, gerente de gestão de projetos na Invespark Empreendimentos Imobiliários, trouxe ao evento uma série de exemplos e estudos que comprovam o impacto da inclusão de elementos naturais, como água corrente, plantas reais, iluminação pelas janelas e mobília de madeira nos ambientes de trabalho. Um dos estudos mencionados foi a pesquisa realizada pela Human Space, envolvendo 7.600 funcionários de 16 países, com o objetivo de verificar se os colaboradores que trabalhavam em empresas com elementos naturais eram beneficiados. O resultado foi que, em relação às pessoas que não trabalhavam na presença de elementos naturais, aqueles expostos à ambientação diferenciada apresentaram nível 15% maior de bem-estar, 6% mais produtividade e 15% mais criatividade. “As pessoas se sentem bem, se sentem menos estressadas, e isso melhora o rendimento”, afirma a Michelle.

Novas propostas

Antonio Macêdo Filho, consultor especialista em certificações ambientais para edificações, esclarece que as normas atuais – que regulam e fiscalizam tanto o atendimento ao meio ambiente no desenvolvimento e funcionalidade de estruturas urbanas quanto na observação ao bem-estar humano – podem ser ferramentas dos profissionais da construção civil e grandes aliadas na hora de tomar decisões. A WELL Building Certification, por exemplo, é considerada a primeira certificação do mundo focada exclusivamente na saúde e no bem-estar humano. Já a LEED garante a eficiência energética ideal em edifícios.

Murilo Toporcov / Crédito: Denysson Sales

Para Murilo Toporcov, diretor da It’s Informov, a decisão de buscar uma certificação, que antes vinha de domínios administrativos das companhias, hoje vem do setor de Recursos Humanos. “Nunca se falou tanto em pessoas. Nunca tivemos tantos projetos via contratos com o setor de RH. Os projetos com biofilia são disruptivos, com emprego de novos materiais e branding no ambiente, para que as pessoas sintam pertencimento, personalidade.” O profissional destaca o uso das novas tecnologias para automação e flexibilização dos espaços, que reagem ao movimento e modem ser moldados para receber eventos com muitas pessoas, reuniões menores ou ampliação do espaço para tráfego.

“Hoje o escritório tem que estar pronto para receber seres vivos, com espaços para uma academia, estruturas de alimentação, eco business, área de descompressão. Salas ambientadas são um recurso de bem-estar que prima pela experiência do usuário e podem ser inspiradoras.” Ele conta ainda que uma demanda frequente tem sido um pedido especial: o espaço “instagrammable”. Da palavra em inglês, o conceito traduz algo como “instagramável”. “As pessoas querem chegar, tirar fotos para postar e desfrutar de um ambiente que gere engajamento natural, porque as pessoas estão felizes e curtindo o espaço.”

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  • Diogo Conte
    13/11/2019

    Parabéns pela matéria!
    Muita explicativa.
    Que o design biofílico nos permita a reconexão com a natureza, como proposto pela arquiteta Beatriz Rafaelli, e que seja uma resposta possível para a pergunta “o que é felicidade?”!

  • Bia Rafaelli Casaccia
    14/11/2019

    Parabéns, a matéria ficou incrível, fazendo jus ao Congresso!
    Gostaria de fazer uma correção, meu nome é Bia Rafaelli Casaccia.
    Obrigada.


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