Aluguel de temporada

O que é o overturismo e como ele reforça a especulação imobiliária?

Superlotação atrapalha funcionamento de cidades e causa impacto negativo no meio ambiente

Por:Breno Damascena 04/10/2023 4 minutos de leitura
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Fluxo excessivo de pessoas durante curtos períodos passou a ser combatido em cidades europeias e brasileiras/ Crédito: Getty Images

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Filas intermináveis para tirar fotos no templo Pura Lempuyang, em Bali, casos de violência relatados nos arredores da Torre Eiffel e a vandalização de pontos turísticos históricos ilustram o impacto do excesso de visitantes em destinos populares pelo mundo. O overturismo (overtourism) é o fenômeno que acontece quando uma região recebe muitos turistas em um curto espaço de tempo.

Essa abundância de pessoas resulta em tensões para as cidades que os estão recebendo. “Observa-se o impacto na mobilidade urbana, saneamento básico, aumento de tráfico de drogas, depredação de patrimônios, prostituição etc”, ilustra Heros Lobo, professor do Departamento de Geografia, Turismo e Humanidades (DGTH) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). 

Impacto nas cidades

De acordo com um relatório da Organização Mundial do Turismo das Nações Unidas, 963 milhões de pessoas fizeram viagens internacionais em 2022. Uma estimativa do  Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC) acredita que em 2023 a atividade turística no mundo deve alcançar níveis pré-pandêmicos e movimentar US$ 9,5 trilhões na e economia, representando 9,2% do PIB mundial. 

O turismo, portanto, é responsável por gerar empregos e contribuir para a economia local. Os problemas acontecem quando as cidades não estão preparadas para este fluxo de pessoas. “É totalmente possível ter um turismo em larga escala, mas organizado. Este é o ideal que se busca. O overturismo acontece quando há uma desorganização massificada”, descreve Heros.

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Ou seja, não é necessariamente o número de turistas numa cidade que define se ela está sofrendo com o overturismo, mas, sim, a forma como ela suporta esse movimento. “Existem ambientes mais frágeis que, ao invés de dezenas de milhares, bastam algumas poucas centenas de pessoas para provocar uma desproporcionalidade que atrapalha o funcionamento de atividades e resulta em problemas ambientais”, argumenta o professor.

Na prática, os reflexos dessas multidões são percebidos na depredação de cartões-postais, nos congestionamentos de pessoas e veículos, em danos ao meio ambiente e no encarecimento de produtos e serviços. Para diminuir este impacto, o sítio arqueológico da Acrópole de Atenas, por exemplo, limitou a presença de 20 mil visitantes por dia e criou um sistema de cobrança por hora que o turista permanecer no local. 

Especulação imobiliária

Neste ano, a cidade de Nova York entrou em rota de colisão com plataformas de hospedagem como o Airbnb ao aprovar uma lei que proíbe o aluguel de apartamentos para estadias de menos de um mês. De acordo com um comunicado da prefeitura à época, a prática gera barulho, lixo e problemas de segurança para moradores e seguranças. 

Além disso, existe a expectativa de que a norma alivie a escassez de habitação na cidade, onde o valor médio do aluguel é de cerca de US$ 5 mil mensais. Sofrendo com imóveis caros, um dos objetivos da prefeitura é reverter um dos efeitos práticos do overtourism: a especulação imobiliária. 

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A matemática é simples: o aumento no número de pessoas visitando um local faz com que o preço do aluguel suba. Esse aumento impede que os antigos moradores consigam pagar os preços e eles acabam se mudando para outras regiões. Enquanto isso, suas antigas moradas dão lugar para hotéis e casas de veraneio. 

“A medida que uma cidade tem mais turistas, existe maior interesse em serviços para atender essas pessoas, o que reflete no aumento de preços e em especulação imobiliária”, descreve Heros. No Brasil, ele cita o litoral de São Paulo como exemplo para este movimento. “Locais como Ubatuba já até criaram estratégias para controlar a quantidade de turistas e o impacto causado por eles”, pontua. 

Como conter o overturismo? 

Desde fevereiro deste ano, a cidade paulista cobra uma taxa de preservação ambiental (TPA). São valores pagos diariamente por veículos que entram na região e que podem variar de R$ 3,50 a até R$ 92. Outras cidades brasileiras, como Fernando de Noronha (PE), Jericoacoara (CE), Morro de São Paulo (BA) e Jalapão (TO), adotam estratégias semelhantes.

A cobrança de taxas dos turistas que chegam à cidade, entretanto, não é a única medida sugerida para diminuir os impactos negativos do overturismo. “Isso acontece por causa de uma dinâmica de mercado que tenta explorar o que está em alta. É reflexo da falta de planejamento”, comenta Heros. 

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“É necessário criar uma curva melhor de distribuição temporal e espacial destes turistas, para que não fiquem todos ao mesmo tempo no mesmo lugar. Também é importante difundir o fluxo e desenvolver uma dinâmica de serviços públicos. O turismo tem que ser entendido como uma dinâmica onde o poder público e o mercado privado trabalham juntos”.

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