Chame sua mãe para o almoço de domingo na sua casa e é provável que você se pegue aguardando ansiosamente o comentário sobre a sua escolha exótica de papel de parede ou sobre o quadro pendurado de maneira amadora. Ou ainda a quantidade insana de coisas que vêm conquistando residência permanente na sala. Ou talvez não seja ansiedade, e sim alívio, o que você sente quando visita sua mãe e senta no sofá xadrez dela, com manta de crochê na parte onde se apóia a cabeça. Aí se pergunta como conseguiu escapar das escolhas esquisitas de decoração que definiram sua infância, como sapos. Isso, sapos.

Trisha Leitch cresceu em uma casa de três quartos na região central de Washington que, em dado momento, estava soterrada por mais de 200 objetos relativos a sapos, porque a mãe dela amava sapos e, quando você aprecia uma criatura fofa de um jeito extravagante, as pessoas te presenteiam com parafernália. Havia almofadas de sapo, tapetes de sapo, panos de prato e cobertores de privada de sapo. Havia até um conjunto de personagens de Camelot, com Rei Arthur, Sir Lancelot e Guinevere – cada um deles um sapo em trajes medievais.

“O que você disser, se tiver sapo no meio, ela teve”, afirma Leitch, 42 anos e morando em uma casa de seis quartos em Boise, Idaho, com a família, mas nenhum sinal de decoração anfíbia. Leitch, que descreve o estilo da mãe como “hippie fortemente eclético”, prefere uma estética mais clara, com superfícies limpas e objetos em ordem. Ela também evita qualquer coisa brega e se recusa a assumir compromisso com qualquer espécie de criatura. Quando ganhou de aniversário um galo de cerâmica, seus filhos sugeriram que ela arranjasse mais alguns para criar um cenário de fazenda na cozinha. Leitch sepultou a ideia na mesma hora.

“Não quero 82 corujas ou 4 mil galinhas na minha cozinha só porque alguma vez eu falei que gostava de galinhas e todo mundo decidiu: vamos dar algo com galinhas para a Trisha”, diz ela. Para bem ou para mal, as expectativas criadas pelos pais se infiltram nos lares que construímos como adultos, influenciando o modo como decoramos e mantemos nosso espaço, além de definir um parâmetro que nós penamos para atingir ou do qual tentamos voar para bem longe.

A sensibilidade decorativa da sua mãe pode se manter, queira você ou não. Seus gostos de cores, tecidos e estilo podem ser diferentes, mas alguns princípios implícitos vão continuar a sussurrar no seu ouvido, lembrando você de ter na sala o mesmo número de assentos que tiver na mesa de jantar, ou de sempre deixar o quarto arrumado antes de sair. Se não fizer isso, você pode sentir que fracassou em atingir alguma meta impraticável. Porém, se deixar totalmente de lado suas regras de infância, é capaz de você sentir uma pontada de nostalgia.

“Toda criança luta para ser independente, mesmo as de 60 anos”, afirma Fawn Galli, decoradora de interiores de Manhattan. “Elas querem acolher a educação estética que tiveram, mas também desejam romper com ela.” Ser seu próprio adulto pode ser difícil, principalmente se sua mãe – ou seu pai, se o olho para decoração da família fosse o dele – tinha bom gosto. E ainda mais se você não tiver tanta certeza quanto ao seu próprio gosto. Sua casa e a decoração podem ser um lembrete constante de que você não chegou a um objetivo indefinido, e talvez nunca vá chegar.

Heranças materiais e imateriais

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Sempre que Yvonne Robbins vê as fotos da família na entrada de sua casa de quatro quartos em Prague, Oklahoma, não consegue deixar de pensar que a mãe dela reprovaria a escolha. “Toda vez que boto um prego na parede, eu penso: Deus do céu, queria que minha mãe estivesse aqui para mudar isso de lugar ou fazer ficar bem em algum canto”, afirma Robbins, 42, cuja mãe, Arlene Hamilton, morreu em 2014. Enquanto a mãe tinha jeito para arrumar uma parede de quadros, Robbins vem descobrindo que a dela sempre fica com uma aparência caótica. “Sou uma bagunça”, diz.

Quando era pequena em Modesto, Califórnia, Robbins e a mãe, solteira, costumavam ir a festas de decoração de interiores com amigos e investir em móveis de qualidade feitos para durar décadas. Robbins não herdou nada desse instinto para a decoração e odeia pesquisar preços de móveis. “Não sei se eu pego muito pesado comigo mesma”, diz ela, “mas eu ainda me vejo como uma adolescente botando pôsteres no meu quarto”.

A filha mais velha dela, Vashti, 7, parece ter herdado o interesse da avó pela decoração. Há algumas semanas, Vashti viu um tapete rosa-choque na loja de tapetes local quando as duas passaram por lá. Ela implorou por ele até Robbins comprá-lo de presente de aniversário para a filha. Alguns dias depois, quando Robbins tentou colocar uma foto de Vashti bebê na parede de quadros na entrada de casa, a filha insistiu para que o quadro fosse para o quarto dela. “Houve lágrimas”, afirma Robbins. Como compromisso, Robbins deixou a filha pendurar no quarto uma foto que era da avó, “mas ainda assim ela não ficou feliz”.

Ela já consegue imaginar como a futura casa da filha vai parecer. “Alta moda, várias texturas suaves e brilho”, afirma. “O tipo que parece saído de um livro.” Aqueles de nós com pais mais velhos tentando mudar para espaços menores já tiveram seu encontro com o não solicitado (e geralmente desproporcional) item de segunda mão. Pode ser a cristaleira cheia de, adivinha só, cristais de que você não precisa e nem tem onde guardar.

Nos últimos anos, os baby boomers começaram a entender que seus filhos millennials, vivendo em casas menores e cativados por tendências minimalistas, não têm espaço, ou mesmo vontade, de herdar aquelas coisas todas. Um armário decorado já basta para acabar com um look cuidadosamente selecionado de meio de século. Mas como é que você diz para sua mãe que aquele visual “sucessos do brechó” não é a sua praia? Talvez você não diga.

Jeffrey Bilhuber, decorador de interiores de Manhattan, diz que nós deveríamos abraçar o passado, e não rejeitá-lo. “A maioria dos clientes vêm até nós dizendo que quer começar do zero”, afirma. “Tenho zero dúvida de que eles têm algo de significativo em casa – em algum lugar está o Rosebud deles.” Quando os clientes vêm ao seu escritório, Bilhuber pede a eles para levarem fotos das peças que querem reestofar ou refazer o acabamento. Depois, diz a eles para irem a uma loja de tecidos escolher uma textura, cor ou estampado de que gostem.

“Acho que ninguém devia imitar o estilo da mãe”, diz ele. “Mas elas investiram em cultivar sua sensibilidade e construir princípios a partir dos quais você pode crescer.” Em outras palavras: que tal dar razão para sua mãe? Até Leitch achou um jeito de apreciar o amor de sua mãe pelo brega. Quando a mãe costurou para ela um jogo de crochê dos personagens de “Guerra nas Estrelas”, ela aceitou de bom grado. “São estupidamente fofos”, diz ela sobre os bonecos de 30cm da Princesa Leia, Luke Skywalker e Han Solo. Ela os exibe em uma prateleira da sala de TV, onde os convidados raramente vão, e a família pode ficar encantada com eles, privadamente. / TRADUÇÃO DE FABRÍCIO CALADO