Sumário

    Apesar da polêmica em torno do Microapartamento de 10 m² que viralizou no Tik Tok nos últimos dias, Gutemberg Albuquerque, corretor que gravou o vídeo viral, disse que já foi procurado por pessoas interessadas em comprar o imóvel. “Eu já cheguei a ouvir propostas, e levar pessoas para visitar (o imóvel). Então, é vender nos próximos dias”, afirmou ao Estadão. 

    A unidade faz parte do edifício VN Nova Higienópolis, localizado no distrito de Santa Cecília, região central de São Paulo. Tratado como o menor apartamento da América Latina, o espaço tem 10 m² e está avaliado em R$ 200 mil. Encarregado de vender o imóvel, Albuquerque resolveu fazer um vídeo exibindo o local. Contudo, o conteúdo viralizou na rede e centenas de usuários teceram comentários criticando o valor do microapartamento em razão da baixa metragem.

    “Eu li comentários como: ‘isso parece uma casinha de cachorro’, ou “(com o valor do apartamento) eu compro um sítio na minha cidade’”, relatou o corretor, que afirmou ter reagido com surpresa à viralização do vídeo. “Eu imaginei que pudesse chamar a atenção por ser um apartamento fora da curva, mas eu não imaginava que fosse ter essa repercussão.”

    O lado positivo, na avaliação de Albuquerque, é que a popularização do vídeo ajudou a tornar o apartamento mais conhecido. Assim como houve reprovações do público, pessoas também se manifestaram favoráveis ao espaço, pondera o corretor. “Da mesma forma que gera repercussão negativa, gera repercussão positiva também”, diz. “Eu já cheguei a ouvir propostas, levei pessoas para visitar o local e tenho outras visitas agendadas. É vender nos próximos dias.”

    Ele explica que o perfil de compradores dos microapartamentos são investidores interessados em alugar o espaço, ou então pessoas que moram em outras cidades, mas precisam ir para São Paulo para estadias curtas. “As pessoas querem ter um ponto de apoio e que seja bem localizado.” 

    ‘Não conhecem a realidade’

    Sobre as críticas, Albuquerque preferiu minimizar. O corretor disse que a maioria dos comentários negativos foi feito por pessoas que não conhecem a realidade imobiliária da capital. “A realidade do centro de São Paulo é bem diferente da realidade das cidades do interior”, ressalta.

    Ele garante que há unidades com valores relativos ainda maiores que o do edifício VN Nova Higienópolis, e que são aceitos pelos consumidores. “Em Pinheiros, há apartamentos com o valor do m² custando R$ 30 mil. E vendem bem.” 

    O valor do m² do imóvel que ganhou destaque no Tik Tok é R$ 20 mil, acima da média do distrito de Santa Cecília, região onde está localizado. Segundo o corretor, o preço médio de apartamentos novos, seminovos e lançamentos na região é de R$ 15 mil. “Mas há unidades mais caras e mais baratas. Isso depende também do empreendimento.” 

    O apartamento da VN Higienópolis foi vendido em 2017, no ano de lançamento do edifício. O comprador desemblsou R$ 100 mil na época para garantir o espaço. O que significa que o imóvel valorizou 100% ao longo dos últimos cinco anos.

    Ariel Frankel, sócio e CEO da Vitacon, incorporadora responsável pela construção do prédio, explica que o valor do apartamento está atribuído à capacidade de rentabilidade, os benefícios que o prédio oferece e também “questões mercadológicas”, como oferta e demanda dos consumidores pela unidade.

    Público solteiro

    Assim como Gutemberg Albuquerque, Frankel também identifica que o perfil de pessoas que compram os microapartamentos é de investidores interessados em encorpar a renda com o aluguel do imóvel para terceiros. Mas ele entende que o aumento de pessoas que moram sozinhas é uma tendência que intensificou buscas pelos menores espaços. 

    “Há cada vez mais divórcio do que, necessariamente, casamento; há mais pessoas sem filhos, e mais pessoas com pet (bicho de estimação). Se nas décadas passada e retrasada se tinha três ou quatro pessoas morando em um apartamento, hoje temos um, duas pessoas (morando juntas) ou até uma família moderna em que cada membro da relação mora em casas diferentes”, avalia Frankel. “Existe essa tendência comportamental que leva o público single (solteiro) a crescer demais”.

    O empresário avalia também que a compactação é uma tendência no mercado imobiliário. “Não se trata de apertar, mas de inteligência de espaço, de simplificar e trazer mais praticidade” diz. “Essa tendência está acontecendo em todos os apartamentos na nossa visão. Menos é mais. Luxo, hoje, é poder estar em 10 minutos em qualquer lugar; é poder escolher se você quer ter uma empregada ou não; é ter flexibilidade e mobilidade.”

    Mudança na legislação

    De acordo com um estudo da USP, noticiado pelo Estadão, ao menos 250 mil apartamentos pequenos — que possuem menos de 40m² — foram lançados na cidade entre 2014 e 2020. O boom dos empreendimentos foi impulsionado por um decreto municipal aliado a uma mudança na legislação, e também por tendências de mercado.

    O empresário explica que a melhoria da mobilidade é a principal bandeira da Vitacon. A possibilidade de oferecer um estilo de vida mais prático aos moradores de São Paulo, em que se perde menos tempo no trânsito, é uma das metas da empresa. 

    A Vitacon, segundo o CEO, não faz mais apartamentos de 10m² por causa de limitações impostas pelo Plano Diretor da capital paulistana. A metragem mínima agora é de 17m². Contudo, questionado se projetaria imóveis menores que o do vídeo viral caso pudesse, ele acena de forma positiva: “Pensando em alguns lugares e para o público que a gente conhece, sim”.

    Este conteúdo foi originalmente publicado em: https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,que-viralizou-ja-tem-propostas-de-compra-diz-corretor,70004111746