Guia de Bairros

Dia da Consciência negra: Os bairros mais negros de São Paulo

Para o professor Danilo França, é importante lidar com os estigmas que rondam bairros periféricos para diminuir os preconceitos/ Crédito: Getty Images
Breno Damascena
20-11-2022 - Tempo de leitura: 4 minutos

Uma caminhada pelas ruas de São Paulo oferece um vislumbre de um tour pelo mundo. É uma miscelânea de culturas, culinária, arquitetura e contrastes em um mesmo aglomerado de terra. No entanto, ainda que a miscigenação seja uma característica da população brasileira, a cor da pele é um atributo marcante quando se observam as características dos bairros mais negros e brancos de São Paulo. 

De acordo com o Mapa da Desigualdade de 2021, realizado pela Rede Nossa São Paulo com informações populacionais do Censo, apenas 5,8% dos habitantes do distrito de Moema são pretos ou pardos. Do outro lado deste ranking e do Rio Pinheiros, o Jardim Ângela tem 60,1% de moradores negros em sua população, líder entre os bairros mais negros de São Paulo. E a distância entre os dois distritos vai além das horas gastas em uma longa viagem de ônibus

DistritoProporçãoDistritoProporçãoDistritoProporção
Moema5,8Penha23,9Parque do Carmo40,7
Alto de Pinheiros8,1Mandaqui24,3Vila Andrade41,4
Itaim Bibi8,3São Lucas24,4Sapopemba41,7
Jardim Paulista8,5Cursino24,6Ermelino Matarazzo43,0
Vila Mariana8,7Belém24,7Cachoeirinha43,3
Perdizes9,4Vila Matilde25,4São Miguel44,1
Santo Amaro10,3Jaguara25,8Cidade Dutra45,5
Consolação10,6Aricanduva27,5Itaquera45,7
Lapa10,7Vila Sônia27,9Raposo Tavares46,5
Saúde10,9Casa Verde29,1Jaraguá47,3
Tatuapé11,1Freguesia do Ó29,9José Bonifácio47,6
Pinheiros11,1República30,2São Rafael47,9
Campo Belo12,2Pirituba31,3Campo Limpo47,9
Moóca12,3Bom Retiro31,4Marsilac48,6
Água Rasa13,8Sacomã32,0Perus48,8
Vila Leopoldina14,4São Domingos32,0Vila Jacuí49,0
Santana14,5Rio Pequeno32,4Cidade Ademar50,0
Barra Funda15,7Limão32,8Anhangüera50,3
Butantã16,1Brás33,5Brasilândia50,6
Carrão17,3Vila Medeiros34,0Iguatemi50,9
Liberdade17,9Vila Mariana34,0Vila Curuçá51,2
Vila Prudente19,0Jabaquara34,4Jardim São Luís51,3
Tucuruvi19,3Jaguaré34,4Guaianases51,5
Morumbi19,5Pari34,7Pedreira52,4
Santa Cecília19,7Ponte Rasa35,2Capão Redondo53,9
Vila Formosa20,4Jaçanã35,8Jardim Helena53,9
Cambuci21,0Artur Alvim37,1Itaim Paulista54,8
Socorro21,5São Mateus37,5Cidade Tiradentes56,1
Bela Vista21,6Cangaíba38,2Lajeado56,2
Ipiranga22,038,3Parelheiros56,6
Vila Guilherme22,0Cidade Líder38,8Grajaú56,8
Campo Grande22,3Tremembé39,7Jardim Ângela60,1
Fonte: Proporção (%) da população preta e parda por distrito/ Mapa da Desigualdade 2021/ Rede Nossa São Paulo

O mesmo índice aponta que a densidade domiciliar de Moema é de 2,3 pessoas por residência, ao passo que no Jardim Ângela o número sobe para 3,1. A proporção de domicílios em favelas no Jardim Ângela é de 53,27%; em Moema, o mapeamento apresenta o número 0. Essas desigualdades se relacionam em vários outros pontos do estudo, que vão desde o acesso à internet móvel até a idade média ao morrer. 

Os moradores de Moema, por exemplo, vivem em média até os 79,5 anos, segundo o mapa da desigualdade. Já a idade média ao morrer no Jardim Ângela é 61,2 anos. Esse cenário de consolidação de bairros mais negros de São Paulo, na concepção do Professor de Sociologia da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do Afro CEBRAP, Danilo França, está ligada diretamente à classe social, mas não só isso.

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Desigualdade de classe e de cor

“A segregação nas cidades brasileiras se dá por linhas de classe. Mas essa separação entre ricos e pobres também é perceptível por aspectos de cor, pois, no Brasil, a maior parte dos mais pobres são pretos”, afirma. “Porém, ao se examinar os índices de brancos e negros pertencentes à mesma classe, nota-se que há, sim, outras formas de separação racial.” 

Ele explica que mesmo negros de classe média, em geral, não moram nos mesmos lugares que brancos de classe média. “O centro expandido de São Paulo engloba locais com alta concentração de brancos de classe média e alta. No entanto, mesmo negros de classe média tendem a morar em regiões mais próximas da periferia”, comenta o pesquisador. 

Danilo levanta duas hipóteses para este cenário: a discriminação do mercado imobiliário, que cria barreiras para que pessoas negras acessem espaços elitizados das cidades; e o campo delimitado de aspiração habitacional. “Por mais que as pessoas vivenciem mudanças sociais, isso não é visto no aspecto residencial. Mesmo quando um jovem ascende economicamente, por exemplo, ele tem a maior propensão a querer morar perto dos seus pais”, sintetiza.

Barreiras invisíveis para a mudança de CEP

Em sua tese de doutorado, cujo título foi “Segregação racial em São Paulo: residências, redes pessoais e trajetórias urbanas de negros e brancos no século XXI”, ele aplicou questionários para entender a percepção de indivíduos periféricos sobre a cidade. “O seu local de residência determina onde você circula, com quem se relaciona e as oportunidades que tem. Isso ajuda a cristalizar certas distâncias sociais.” 

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“Os negros de classe média que ascendem economicamente acabam se relacionando com outras pessoas negras e isso é somado às construções de representações locais de cada grupo”, comenta o pesquisador. “Perguntei para uma série de pessoas de São Miguel Paulista, por exemplo, onde elas queriam morar se tivessem dinheiro ilimitado. A maioria respondia Tatuapé, ao invés de Alphaville, Pinheiros ou Jardins”, exemplifica.

Na perspectiva do professor, esse ambiente de pouca diversidade nos bairros mais ricos se traduz em oportunidades mais restritas aos negros. O caminho para a mudança social, ele defende, não passa apenas por garantir a inclusão dessa população na classe média, mas, também, pela disseminação de políticas públicas, equipamentos estruturais para todos os bairros e uma circulação mais ampla e irrestrita pelas cidades.