São Paulo avança em altura e, por si só, isso não é um problema. O desafio está em como essa verticalização é planejada, distribuída e integrada à vida urbana. A capital paulista vivencia um processo acelerado que salta aos olhos. Nos últimos dez anos, a cidade incorporou sete mil novos condomínios, segundo dados da Receita Federal e do mapa dos condomínios produzido pelo Data Lello, elevando o total para 31 mil e movimentando cerca de R$ 27 bilhões anualmente.
Para contextualizar a dimensão desse fenômeno, capitais como Salvador, João Pessoa e Brasília, juntas, não alcançam esse número de empreendimentos verticais, e cidades como Florianópolis ou Goiânia possuem apenas metade desse total.
Ainda que São Paulo ocupe a 22ª posição no ranking nacional de cidades mais verticalizadas, com 29,4% de sua população residindo em edifícios, é, disparadamente, a metrópole brasileira com o maior número absoluto de pessoas vivendo em altura. Na prática, isso significa uma pressão crescente sobre melhorias em infraestrutura, mobilidade, serviços e convivência urbana, sem sinais claros de desaceleração.
O censo demográfico de 2022 do IBGE apresenta o ritmo acelerado de crescimento da moradia vertical na capital paulista. Enquanto a população que vive em condomínios aumentou 26% na última década, passando de 2,6 milhões para 3,3 milhões de pessoas, o número de apartamentos construídos cresceu ainda mais: 40% no mesmo período, com 426 mil novas unidades entregues.
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Isso representa quase três vezes o volume registrado Rio de Janeiro, a segunda cidade com mais lançamentos no país, que registrou 156 mil novos imóveis. O descompasso entre crescimento físico e planejamento urbano ajuda a explicar muitas das tensões que hoje se manifestam no cotidiano da cidade. E a projeção é de que, até o final de 2026, sejam entregues 620 novos condomínios na cidade de São Paulo, um crescimento de 8,85% em relação ao total acumulado em dez anos.
A mudança na paisagem urbana é inegável. A vida em edifícios começou a ganhar espaço em São Paulo há cerca de 70 ou 80 anos, impulsionada pela crescente demanda por moradia em regiões centrais e pela necessidade de otimizar o uso do solo escasso.
Nas décadas de 1980 e 1990, bairros mais nobres e centrais, próximos a comércios, serviços e entretenimento, passaram por um intenso processo de verticalização. Contudo, esse movimento acentuou a desigualdade urbana: aqueles com maior poder aquisitivo garantiram seu lugar em áreas privilegiadas, enquanto outros foram empurrados para as periferias.
A verticalização, portanto, não é um fenômeno neutro, e tampouco consensual. De um lado, surgem críticas relacionadas à perda de identidade dos bairros, ao avanço da gentrificação, à monotonia arquitetônica e ao aumento do trânsito. De outro, destacam-se argumentos ligados ao desenvolvimento econômico, à geração de empregos e à revitalização de áreas degradadas. A questão central não é ser contra ou a favor da verticalização, mas compreender que ela exige escolhas conscientes e responsabilidade urbana. É nesse ponto que a discussão precisa avançar.
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A verticalização pode — e deve — ser uma aliada na construção de uma cidade mais humana, equilibrada e funcional, desde que esteja ancorada em planejamento, governança e desenvolvimento local. Para isso, o desenvolvimento imobiliário responsável é crucial, ancorado em premissas já presentes no Plano Diretor de 2014, revisado em 2023.
Quando os bairros passam a oferecer uma gama mais ampla de produtos, serviços e empregos, os deslocamentos diminuem, tornando a cidade mais dinâmica e interessante. Poder trabalhar a poucos minutos de casa, ter um parque, um restaurante ou um médico na própria comunidade fortalece o senso de pertencimento e eleva a qualidade de vida. A lógica das “cidades dentro da cidade” vai além do conceito; ela impacta diretamente a qualidade de vida.
Incentivar a construção de empreendimentos próximos a estações de metrô, corredores de ônibus e outras infraestruturas de transporte coletivo é parte essencial dessa equação. Essa estratégia reduz a dependência do carro, alivia a pressão por vagas de garagem e torna a cidade mais acessível para todos.
Além disso, é preciso estimular a criação de moradias com custos mais baixos em bairros centrais, permitindo que pessoas de diferentes realidades sociais compartilhem os mesmos espaços – como o emblemático edifício Copan, onde patrões e empregados coexistem, rompendo barreiras sociais na moradia.
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Mais do que uma cidade de “pressa”, São Paulo tem o potencial de se transformar em um lugar onde as pessoas realmente queiram viver. O fortalecimento das fachadas ativas, desde que adequadamente vocacionadas, os projetos de retrofit de prédios antigos e a revitalização do centro são elementos essenciais para essa transformação. O espírito de comunidade, que já começa a ressurgir em diversos bairros, tem o poder de mudar a cidade para muito melhor.
São Paulo caminha para construir novos “tecidos de convivência”. Mas esse processo não acontece de forma espontânea. Ele exige coordenação entre poder público, iniciativa privada e sociedade, além da construção de novos hábitos de trabalho, consumo e convivência. A cidade enfrenta desafios significativos no combate à desigualdade e à insegurança, na ampliação dos investimentos em infraestrutura e na construção de comunidades mais integradas.
Ainda assim, há caminhos sendo trilhados e aprimorados, honrando o que já existe e construindo novos espaços de desenvolvimento. É pela ação coletiva que São Paulo continuará a se moldar e evoluir. O futuro da cidade será determinado menos pela altura de seus prédios e mais pela qualidade das escolhas conscientes que fazemos agora — elas, sim, vão definir a paisagem paulistana dos próximos anos.