Em algum momento, os proprietários anteriores da minha casa decidiram derrubar a parede que separava a sala de visitas da de jantar, criando um espaço aberto que, em tese, foi uma boa ideia. Na realidade, me pareceu, não fazia o menor sentido. A sala de jantar parecia uma extensão esquisita, desconectada da de visitas, e não algo privado o bastante para ter seu próprio espaço, embora também não estivesse completamente integrada. Além disso, com a sala de visitas sem uma parede, decidir como mobiliar a área de modo lógico não foi fácil.

Assim, há cerca de um mês, contratei um carpinteiro para restaurar parte da parede. Ao fechar parcialmente o espaço, eu queria criar uma área de jantar separada, com clima próprio, e devolver à sala de visitas suas dimensões originais. Quando eu disse ao carpinteiro o que queria, ele me olhou surpreso, como se tivesse ouvido errado. “Mas as pessoas gostam das paredes abertas”, ele disse. Nas semanas antes da obra terminar, evitei contar aos amigos, preocupada com a ideia de que eles também pudessem achar que eu estava louca. Os poucos para quem eu contei pareciam confusos. Na era do design de espaços abertos, quem constrói uma parede?

A tendência de plantas com espaços abertos – com poucas paredes, ou nenhuma, dividindo os espaços onde comemos daqueles onde relaxamos – se tornou tão consensual que é difícil pensar em alternativas. A ideia de juntar tudo move o design, criando um arranjo em que um pai pode ao mesmo tempo fazer omelete e ver as crianças brincando na sala porque, aparentemente, ninguém quer ficar sozinho. Ou então os convidados podem se mover livremente da ilha gigante na cozinha até o sofá da sala, sem serem interrompidos por obstáculos como portas.

Esse tipo de estilo de design se tornou o evangelho dos reality shows de reformas de imóveis, com astros da HGTV como Joanna Gaines catapultando-o para a fama em grande parte por sua inacreditável capacidade de transformar fazendas decrépitas em showrooms de lofts. Na cidade, esse ethos se traduz com facilidade, porque o espaço é pequeno e os lofts são um jeito autêntico de morar. Tire as paredes de uma cozinha e de repente um pequeno espaço para refeições dá a sensação de ser maior e mais leve. Com uma ilha em vez de uma parede, talvez você tenha onde sentar. Novos apartamentos invariavelmente são projetados com plantas abertas, tendência reforçada pelo contínuo encolhimento dos imóveis. Sem parede alguma, um possível inquilino talvez não perceba quão pequeno o lugar de fato é.

As construtoras garantem que os inquilinos preferem assim. “Muitos inquilinos e compradores estão abraçando o conceito de espaço aberto”, diz Chris Schmidt, vice-presidente sênior da Related Companies, que supervisiona o portfólio de locações da empresa. “Certamente ele dá flexibilidade para entreter e cozinhar.” Schmidt aponta millennials em particular como uma “geração que deseja essa interação social” e que portanto “vai querer esse conceito aberto em vez de tudo emparedado”.

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Proprietários de apartamentos mais antigos também veem potencial na mudança, com um entusiasmo alimentado não só pela HGTV, mas por sites de design de melhorias domésticas como o Houzz, que oferece infinitas imagens de espaços abertos dignos do Instagram. “As pessoas entram em qualquer lugar, não importa a condição, e querem fazer ajustes”, diz Sydney Blumstein, corretor associado com a Corcoran. As pessoas “sentem que têm de personalizar um espaço para torná-lo delas e isso não é só na decoração da casa”. E quer jeito melhor de personalizar do que deixar o que é seu igual ao de todo mundo?

A fixação em abertura também chegou aos subúrbios, onde os compradores alegremente estão pondo abaixo paredes na cozinha e na sala e ampliando portas. “Definitivamente as pessoas estão olhando as plantas”, diz Judith Daniels, assistente de vendas na Prominent Properties Sotheby’s International Realty, que costuma trabalhar com novos compradores que mudam da cidade rumo a Summit, Short Hills, Maplewood e South Orange — cidades de Nova Jersey com grandes casas coloniais que não foram projetadas para se parecerem com lofts. “Elas buscam a abertura que já existe ali ou a possibilidade de criá-la simplesmente abrindo a parede.”

Mas será que nós precisamos mesmo de tanta convivência? Aquela fabulosa festa com jantar em que os convidados circulam sem parar da cozinha à sala de visitas parece bem menos glamurosa com todo mundo vendo a pia cheia de louça suja ou sentindo o cheiro do suflê queimado no fogão. Claro, a ideia de ver seu filho brincar enquanto você prepara o jantar parece ótima, mas só até você estar tentando escutar Terry Gross na NPR enquanto um episódio de “Peppa Pig” berra do outro lado daquilo que costumava ser uma parede. E claro, ainda há todas aquelas fotos do Houzz. Nenhuma delas mostra como fica se você não arrumou o lugar há uma semana e consegue ver a sala bagunçada enquanto toma café da manhã. Sem paredes não há onde se esconder.

“Chegou ao ponto de tudo ficar aberto”, diz Jade Joyner, diretora de criação da Metal + Petal, empresa de design de interiores em Athens, na Geórgia. “Tem algo de agradável na privacidade e em ter seu próprio espaço.” No ano passado, ela começou a notar o começo de uma reação à doutrina da abertura. Os clientes vêm pedindo quartos de mídia, bibliotecas e salas de jogos separados da área principal. Uma sala reservada significa que você pode chegar do trabalho e não se juntar imediatamente à família, o que não é algo necessariamente ruim. “Vendeu-se a ideia de que paredes são ruins, mas elas não são”, diz Joyner.

Uma casa projetada para entretenimento não necessariamente leva em conta que a maior parte do tempo você não está se entretendo. Na maioria das vezes você está só vivendo ali, tentando ler um livro enquanto seu filho estuda piano. Também pode ser difícil decorar uma imensidão de espaço. “Meu maior problema com uma planta aberta é a falta de espaço nas paredes. Onde você pendura coisas?”, diz Abbe Fenimore, designer de interiores de Dallas que adota o conceito de espaços abertos, com essa ressalva.

Depois que o carpinteiro reergueu minha parede, eu pintei a sala de jantar de azul-petróleo escuro e a sala de visitas de branco. Os dois espaços, que antes pareciam competir um com o outro por atenção, agora parecem mais definidos. Se a lição das crianças estiver espalhada na mesa de jantar, eu não preciso mais ver aquilo do sofá e me perguntar quando vai ficar pronta. Quanto aos meus amigos, quando eu chamei alguns para jantar para comemorar a redecoração do espaço, ninguém reparou na parede. Foi como se ela estivesse lá desde sempre. / TRADUÇÃO DE FABRÍCIO CALADO