Quando uma equipe de trabalhadores ergueu uma cerca de um metro e oitenta de altura ao redor do perímetro do quintal do meu vizinho, há dois anos, eu sabia que estava encarando uma causa perdida. “O que eles estão fazendo agora?”, perguntou o vizinho em uma mensagem de texto pontuada com um emoji de carinha chocada.

A cerca, sólida e branca, bloqueava minha visão de um pátio aberto e era apenas a mais recente de uma série de projetos de construção ocorridos no ano desde que um novo casal havia se mudado. Sua primeira tentativa de melhorar a casa foi talvez a mais desconcertante. Eles acrescentaram uma terceira garagem – que deixaram de pintar por algum motivo inexplicável, tornando-a, a meu ver, uma ferida alta e amarelada.

A esposa, uma mulher entusiasmada que falava apressadamente, costumava me encurralar para compartilhar seus grandes planos para sua casa modesta. Na sua lista de desejos vinha, em seguida, uma piscina. Mas as piscinas precisam de espaço, então ela teria que derrubar sua magnólia de 6 metros de altura, porque a árvore tinha a infeliz sorte de viver no meio do quintal. Olhando para a cerca naquela tarde, concluí que sua chegada marcou um primeiro passo crucial em direção ao sonho da mulher. Mandei uma mensagem de volta para o vizinho: “Eles vão matar a magnólia, não vão?”, com emoji de cabeça explodindo.

Mude-se para uma casa ou apartamento e o espaço ao redor parece fazer parte da compra. A identidade do imóvel está invariavelmente entrelaçada às características que se estendem além da porta da frente. Muitas vezes escolhemos onde moramos não apenas pelo ambiente interno, mas pela aparência do quarteirão, pela vizinhança e a vista das janelas do quarto. Ocorre que o ambiente ao redor não é estático. Ele está sujeito aos caprichos dos desenvolvedores, de outros moradores e da cidade. Cada vez que algo muda nos lembra do pouco controle que temos sobre o espaço além da linha da nossa propriedade.

Uma nova torre pode subir do outro lado da rua, não apenas obliterando a vista do horizonte, mas também alterando a paisagem da rua abaixo, com uma grande loja de caixas substituindo a amada pastelaria do bairro. Ou o dono da casa vizinha pode decidir construir uma varanda gigante, invadindo sua privacidade e roubando sua luz enquanto você se pergunta se teria escolhido esse mesmo apartamento se soubesse que isso estava por vir.

“Escolhemos nossas comunidades não apenas pelos impostos sobre a propriedade e pelo sistema escolar que nos oferecem, mas também pela identidade que o bairro nos dá”, diz Richard Florida, autor de “A nova crise urbana”. “E quando alguém muda a sua identidade, você reage visceralmente.”

Paisagem: identidade e privacidade

Quando comprei minha casa, imediatamente me apaixonei pela sensação de abertura que meu quintal com o quintal do meu vizinho exalava. Mas então, em questão de meses, essa visão pastoral foi substituída por, literalmente, um muro.

Também comecei a entrar em pânico com a ideia de perder a árvore deles, com as flores deslumbrantes da primavera, a sombra e a privacidade que ela oferecia no verão. Eu olhava para ela da janela do meu quarto e fumava. Se a árvore desaparecesse, seria a última gota, pensei. Mas e daí? Eu não sou a dona dela, mesmo que sinta como se fosse.

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Reclamar do que os vizinhos estão construindo é um passatempo local, óbvio. A cidade de Nova York decretou suas primeiras regras de zoneamento em 1916, em resposta à construção descontrolada que cortava a luz e o ar para muitos moradores. Hoje, o labirinto de códigos de zoneamento e construção da cidade é frequentemente usado para manter os zelosos construtores alinhados entre si. Mas as regras não podem impedir todas as opções precárias de design ou adições feias no telhado. Na maioria das vezes, os residentes frustrados só podem defender seus vizinhos desinteressados na esperança de influenciar o resultado ou simplesmente resmungar.

Em julho, Ken Rivadeneira, editor freelancer de uma revista, retornou à sua cooperativa no Upper West Side de uma viagem para descobrir que os proprietários do prédio haviam começado a construir uma varanda de vidro e aço na parte de trás do prédio, no mesmo pavimento do apartamento onde morava. Os dois arenitos têm vista para os jardins das propriedades vizinhas do quarteirão. Mas, com a varanda enorme, a vista de Rivadeneira seria parcialmente obstruída e qualquer um que pisasse nela poderia presumivelmente ver seu apartamento. “É muito invasivo”, diz Rivadeneira. “É quase como ter alguém na nossa sala de estar.”

Ele levou suas preocupações ao presidente do conselho da cooperativa e espera poder convencer os vizinhos a reconsiderar o tamanho e a escala da nova estrutura. Mas suas expectativas são moderadas. “Não é meu prédio, não é minha propriedade”, explica ele. “Parece uma daquelas consequências infelizes de viver em Nova York.”

As queixas de construção também podem falar da raiva real contra a gentrificação ou da perda da identidade de um bairro, principalmente quando projetos indesejados vêm de estranhos e não podem ser interrompidos. É assim que você acaba com alguém, em 2013, pintando com spray “Ross não é legal” no local de East Village onde David Schwimmer, o ator que interpretou Ross Geller em “Friends”, destruiu uma casa do século 19 para construir uma mansão.

Mas mesmo que o destino do seu bairro não esteja em jogo, o gosto de outras pessoas pode deixá-lo ansioso e frustrado. Quando você não pode controlar o resultado, tudo o que você pode fazer é esperar e se perguntar o que está acontecendo. Toda vez que um caminhão de empreiteiro estacionava na entrada do meu vizinho, eu começava a entrar em pânico. O que eles fariam a seguir? Quando eles parariam? Em algum momento, você não pode deixar de levar para o lado pessoal – como se a ambição deles fosse te irritar.

“Nossas casas refletem muito nosso senso de nós mesmos e nossa identidade”, conta Susan Clayton, presidente do departamento de psicologia da College of Wooster, cuja pesquisa se concentra em como as pessoas pensam sobre o ambiente natural. “As mudanças físicas que ocorrem em torno da nossa casa estão quase sinalizando falta de respeito por nossa identidade.”

Meus vizinhos nunca derrubaram a magnólia ou acrescentaram a piscina. Em vez disso, eles venderam a casa e se mudaram, terminando sua blitz de construção de dois anos. Com a enxurrada de projetos terminados, parei de alimentar o ódio pelo que vi pela janela e plantei forsítia ao longo da cerca, observando-a crescer no verão. Na verdade, comecei a desfrutar da privacidade que a cerca oferece. Agora, mal consigo me lembrar de como era antes e decidi acreditar que minha visão não mudará novamente nunca mais. / TRADUÇÃO DE ELENA MENDONÇA