Nada como a arte para dar vida à casa, seja uma peça valiosa que você comprou em uma galeria ou uma coleção de arte de rua que você trouxe de onde passou as férias. Porém, antes de pendurá-la na parede, leve em conta o cenário ao fundo dela.

A cor da pintura da sua parede é tão importante quanto o quadro que você escolhe, diz Donald Kaufman, consultor de cores que já trabalhou com o museu de arte Metropolitan de Nova York e o museu J. Paul Getty, em Los Angeles.

Se um quadro for bom, diz ele, “ele some completamente” – e o mesmo vale para a cor da parede. “Você não quer prestar atenção na cor da parede atrás do quadro”, afirma Kaufman. “Você quer ter a impressão de que a pintura ou arte está confortável com o que tem em volta e permite a você que interaja intensamente com ela.”

Então, como escolher a cor certa para a sua obra? Nós fomos atrás da orientação de especialistas.

Veja o quadro macro

Comece levando em consideração o cômodo inteiro – detalhes arquitetônicos, móveis, pisos e quantidade de luz natural que o espaço recebe –, além de que tipo de clima você deseja criar. O objetivo, diz Kaufman, é achar uma cor de parede que minimize qualquer “elemento discordante” que desvie a atenção da arte.

Isso é algo que consultores de cor têm de fazer mesmo em trabalhos para museus. Quando Kaufman criou um esquema de cores para o segundo andar da seção americana do Met, diz, ele teve de levar em conta vários períodos da arte americana, assim como as diferentes iluminações ao longo das galerias e detalhes arquitetônicos, como lambris de pedra calcária e pisos leves de carvalho. A cor de parede escolhida por ele teve de “fazer a pedra parecer bonita sem deixar o piso parecendo feio”, além de “neutralizar a arquitetura”, permitindo aos curadores organizar os quadros por temas.

A cor definida por ele foi “um neutro médio e quente”, que “pegou emprestado o tom” da pedra, criando um ambiente coeso e recuado, para que obras como “Washington Cruzando o Delaware”, de Emanuel Leutze, e “Madame X”, de John Singer, ocupassem o primeiro plano.

Conselho dele? Primeiro, crie equilíbrio em uma sala levando em conta “quão escura ou clara é a cor da tinta, antes de decidir se vai ser vermelha ou verde”. A cor da tinta não é nem de longe tão importante quanto a intensidade dela e o modo como afeta a maneira como os vários elementos na sala funcionam juntos.

“A obra tende a conversar com outras obras de arte e você não quer perder esse diálogo”, diz ele, destacando que o mesmo vale para móveis. “Pendurar obras de arte é isso: é como receber pessoas para um jantar – quem vai sentar do lado de quem?”

Jamie Drake, que fundou a empresa de decoração de interiores Drake/Anderson com Caleb Anderson, tem outro jeito de pensar sobre a questão. “Lembre que você está escolhendo algo para sua casa e sua casa não é um museu. Você pode querer que a arte seja o centro das atenções, mas ela precisa existir como uma parte do cômodo.”

Considere o estilo da arte

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Agora que você levou em conta os arredores, foque na arte. Mas não tente ornar com ela. Uma cor de fundo combinando não vai fazer a peça se destacar, diz Ellen O’Neill, diretor de inteligência estratégica de decoração da Benjamin Moore. Em vez disso, sugere ela, busque uma cor coordenada sutil “que atraia o olhar para a peça”. “A cor da parede onde estiver a coleção – de fotografias, retratos a óleo ou mesmo colagens de objetos – deve servir como uma voz de apoio”, algo que “atrai sem distrair.”

Por exemplo: Metropolitan, a “cor do ano” de 2019 da Benjamin Moore, diz ela, geralmente aparece como cenário de fundo de retratos e paisagens do século 20. Isso porque o meio-tom de cinza tem subtons azuis-esverdeados capazes de unificar várias mídias e combinações de cores. E, quando a arte é suave ou silenciada, diz O’Neill, uma cor como a Metropolitan “refresca a apresentação sem aparecer mais que ela”.

Por outro lado, “se você for exibir peças gráficas fortes, é preferível um fundo que crie contraste”, diz Joa Studholme, curadora de cor para a Farrow & Ball. Isso pode significar usar um branco puro, que funciona bem como fundo de arte moderna com cores fortes, como um Warhol. Já paredes brancas “podem não se sair tão bem com arte mais tradicional”, diz Studholme. “Se você exibir uma pintura impressionista com um fundo branco, o brilho do branco pode impedir que a sutileza das cores da tinta se revele.”

Portanto, é melhor escolher o quê então? “Talvez você devesse pensar em um tom que lembre o período histórico daquela obra, como o preto usado em cerimônias de louvor, inspirado na época georgiana”, explica. Em outubro, a Christie’s usou a cor preta com base vermelha como fundo de pinturas e porcelana exibida em seu catálogo de venda, enquanto o retinto azul stiffkey foi combinado com iluminação, escultura e móveis franceses.

“Muitas peças representativas dos séculos 18, 19 e 20 parecem mais impactantes contra paredes coloridas, mesmo as envernizadas”, diz Drake, citando o exemplo de seu quarto, onde “Napoleão 2001”, de Deborah Oropallo, é visto com paredes envernizadas de cinza escuro ao fundo. “A gravidade da cor da parede, 2129-20 Soot da Benjamin Moore, é um contraste fantástico para a luz e paleta exuberante do quadro”, afirma ele.

Pense na finalização

Pintura lisa oferece o acabamento de menos reflexo, seguida por pintura matte, casca de ovo e lustrosa, que são altamente refletoras. “Não existe uma regra inquebrável para escolher um acabamento para pendurar arte”, afirma Drake. “A arte é que vai dizer isso.” Kaufman, porém, tem um conselho pragmático. “Se você muda sua arte de lugar com frequência, é mais fácil retocar acabamentos lisos”, acrescentando que “os acabamentos de que eu mais gosto são os mais lisos possíveis e com o maior brilho.”

Studholme indica pintura lisa para destacar aquarelas e pinturas a óleo, porque sua falta de brilho permite que a obra de arte, e não a parede, reflita luz. No caso de outras obras de arte, é preferível algo com mais brilho. “Em casas muito modernas nós vemos o uso do brilho total ou da cor casca de ovo nas paredes para complementar peças mais arrojadas de escultura, arte moderna e peças de neon”, diz ela, explicando que paredes com muito brilho “têm uma aparência mais pesada, criando assim um cenário de fundo mais parrudo para essas obras mais visuais.”

Fique com uma cor só. Ou não

“Se você quiser transformar uma obra de arte em um evento”, ensina Studholme, pinte tudo em um quarto da mesma cor, inclusive os revestimentos e a moldagem, para ter “o mínimo de distrações possível”. Quando os detalhes arquitetônicos têm a mesma cor das paredes, eles formam um único cenário de fundo que recua visualmente, tornando a arte o ponto focal. Outra opção é tentar a estratégia inversa: Pintar metade da parede de uma cor diferente. Paradoxalmente, isso também pode destacar a obra de arte.

Por exemplo, “se você expõe uma tela de uma paisagem em que as cores mudam de um tom mais forte para um mais leve no meio do quadro”, diz ela, “a arte vai chamar ainda mais atenção”. Ela continua: “Se você tiver lambril ou divisória de parede, é preferível usar um tom mais forte na parte de baixo e deixar a obra aparecendo com um fundo mais leve na parte superior”.

Se tudo der errado, simplifique

“A menos que você tenha uma peça a que dê muito valor, provavelmente não vai pintar aquele cômodo só para ela”, nota Studholme. “Às vezes, uma parede neutra é o melhor jeito de dar a atenção que sua obra de arte merece.” Sem dúvida, também é o jeito mais fácil.

Se você tiver uma mistura eclética de fotos, Studholme sugere escolher uma cor carvão, cinza escuro, como a Down Pipe da Farrow & Ball. Caso você prefira a cor branca, diz ela, procure um branco puro, como o All White da Farrow & Ball, que não tem os meio-tons frios e melancólicos de um branco brilhante.

“Tem situações em que a melhor opção é a mais simples”, diz Drake. “Se você for exibir peças minimalistas — pense nas esculturas de neon de Dan Flavin ou nas caixas de parede de Donald Judd —, provavelmente o branco matte mais apagado é a única opção. Quando nós optamos pelo branco para mostrar obras de arte menos exigentes, em geral usamos um acabamento com texturas: estuque veneziano, acabamento com espátula ou outros enriquecimentos.”/ TRADUÇÃO DE FABRÍCIO CALADO